Relatos de partos e de outras peculiaridades do universo materno, acompanhados em Salvador/BA e arredores, pela parteira e enfermeira obstetra Mary Galvão e sua equipe.
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quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Estamos entrando na 41ª semana de gestação. Um momento muito especial, de despedida da barriga (esta deve ser a minha última gestação), de expectativa pela chegada de mais um filho, de ansiedade para finalmente segurá-lo (ou, segurá-la) nos braços.
Sim, não quis saber o sexo do bebê. Pessoalmente acho estranha a necessidade que se tem atualmente de saber se é um menino ou uma menina que está para chegar. Geralmente, independente de nossa vontade, o desenvolvimento do embrião ocorrerá. Com todo o seu esplendor e potencialidades. O nome? A decoração do quarto? A cor do enxoval? Como fazer? Rosa ou azul? Sinceramente, nada contra, até bem a favor, de quem curte a beleza desses detalhes. Também fico maravilhada diante de um quartinho de bebê super-bem-decorado... Mas, prefiro dar prioridade a outras questões. Seja menina ou menino, o bebê que está para chegar é uma pessoa diferente de suas irmãs, não vai dar a mínima para a decoração do meu quarto (porque vai passar um tempo compartilhando o quarto comigo e com o papai), e o seu nome já está definido (foi surgindo, secretamente e só anuncio depois que a pessoinha chegar). Precisará de uma mãe inteira, disposta a aconchegá-lo(la) e amamentá-lo... Os paninhos, roupinhas e acessórios couberam todos em duas gavetas do meu guarda-roupa, gentilmente cedidas. Aliás a irmã mais nova também cedeu uma gavetinha da sua cômoda para as fraldinhas de pano. Porém, preciso confessar um pequeno desvio de conduta: confeccionei lembrancinhas de maternidade. No meu caso, creio, com o parto domiciliar, serão "lembrancinhas de nascimento". Não resisti a essa "peruísse" de mãe moderna.
Mudando de assunto, faz umas três semanas que precisei me afastar do mundo. Cansaço, dores musculares e uma necessidade enorme de dar um tempo na correria do cotidiano. Sou mãe, estudante (de Enfermagem, voltei para a faculdade aos 36 anos), professora de adolescentes (lindos!) e doula/assistente perinatal (com Mary). Mas como é difícil fazer isso, afastar-se do mundo... As atividades, os acontecimentos, as obrigações, as demandas sociais e afetivas continuam chamando a atenção. Desse modo, apesar da tentativa de relaxar, continuei cansada e estressada. Às vezes, uma megera insana... Fui salva por minhas amigas/parteiras queridas, Mary, Marilanda e Adriana. Passei dias maravilhosos na Ilha de Itaparica, com direito a tratamento de rainha, mar, sol, incensos, massagens, abraços, carinhos, conversas cabeça e conversas besteirol total. O mais importante? Sentir-me acolhida, protegida, cuidada... Serei eternamente grata a estas amigas por esses dias tão especiais.
Chegamos ao final desta postagem. E agora? Agora estamos no final, eu sentindo contrações que variam em intervalos d 10-15 minutos. Incômodas e começando a sentir dor. Pouquinha dor, no pé da barriga e nos quadris. Sinto que preciso me movimentar, caminhar. E dar um tempo da pressão do "tempo que está acabando"... Tenho reforçado para mim mesma que é possível e natural esperar pela hora real do nascimento. Pelo nosso tempo. Talvez essa "demora" seja devida à necessidade de resgatar o tempo que faltou para que o nascimento de Letícia (minha segunda filha) acontecesse espontaneamente. O momento também é de aprendizado.
Ontem fizemos uma despedida da barriga, aproveitando a visita de Mary (que me ajudará na recepção do bebê) e de Ula, uma amiga muito querida, antropóloga, defensora da nossa causa, o parto natural, e, claro, super-inteligente e gente boa. A barriga foi transformada numa tela, dividida ao meio, e as meninas expressaram as suas bênçãos e criatividade para o bebê.
Fico por aqui. Espero que, quando escrever novamente, seja para contar sobre o encontro entre eu e meu bebê querido. Pensamentos positivos!
Fui chamada por Mary para uma conversa há algum tempo, mas não estávamos em sintonia e não nos encontrávamos. Num certo momento pensei e automaticamente liguei. Consegui.
Nos encontramos no dia e horário combinado e fui surpreendida por um convite muito especial. Trabalhar como Ajudante Peri-natal por um tempo enquanto Liliana curte seu momento mãe. Realmente a sintonia tão forte que Liliana ligou e pude então pedir permissão, mesmo por telefone, para tentar substituí-la.
Tínhamos nos visto apenas uma vez num momento de aprendizado em uma oficina para gestantes, mas mesmo assim percebi que ela não estava bem, perguntei se queria minha ajuda, e ela recusou, fiquei sem graça, mas me colocando em seu lugar, como eu reagiria a invasão de uma estranha em meu território?
Mary a propôs sair para caminhar na praia, gostei da idéia e me ofereci para acompanhá-la, só que dessa vez sem pedir permissão.
Fui em casa, me organizei, afinal também sou mãe, e munida de biquíni e boa vontade saí para encontrar Liliana de surpresa. Chegando ao endereço liguei para saber qual era a casa e descobri que ela havia saído. Resolvi procurá-la aos redores e a vi, estava com uns óculos escuros enormes e um barrigão lindo!
Nos abraçamos e saímos caminhando. Mostrei que estava de biquíni, e Liliana resolveu também vestir o seu.
Passamos a tarde toda conversando, trocando experiências e boas energias. A beira da praia, sentadas na areia, sob um céu maravilhoso descarregamos nossas energias para que as ondas levassem para onde não pudesse nos fazer mal.
Com um abraço nos despedimos no final da tarde e quando já estava em casa, embaixo do chuveiro refletindo sobre tudo que aconteceu, entendi a importância da oportunidade que fui presenteada. Senti o que “doular”.
É permitir prestar atenção, é uma troca de energias, é doação mútua. É entender que enfrentando nossos problemas e angústias podemos ajudar o outro a também enfrentar. É ver que se impor diante de situações limite e encará-las é prazeroso.
Dizer ao outro o que sente, desabafando é saudável.
Parir é mais que o ato fisiológico, é renascimento.
Quando Tâmara me contou o plano que tinha para o nascimento da Yana eu não demonstrei muito entusiasmo porque tive medo, os medos diversos do tipo com a segurança, junto a isso uma imagem de sangue e sofrimento, etc. Eu sabia que em um hospital isso seria minimizado.
Pensei que Tâmara mudaria de opinião com o tempo o que não aconteceu, mesmo eu tentando de algumas maneiras. Ai veio o encontro com Mary e também a proximidade com o parto, assisti alguns filmes sobre o assunto e de uma certa forma fui me atentando que era isso mesmo, eu tinha que enfrentar.
·Parto
Tínhamos feito alguns planos de como seria quando chegasse o momento do parto e de uma certa forma foi muito bom, quando Tâmara começou sentir as primeiras dores, logo acionamos Mary e isso acalmou a todos.
Mas quando de fato o parto começou e me vi envolvido naquela tarefa que eu não tinha idéia de como reagir, me senti só, vi que era fraco, pensei em correr, porque tinha aceitado isso etc. Mas a parteira estava ali, isso me deu alguma força.
As horas passavam o nenê não chegava e minha ansiedade interna aumentava. Meus medos passavam por mim, mas acredito que decidi manter a calma e confiar e me entregar de coração, queria ver todos bem e salvar minha mulher. Salvar ela foi uma força que me acordou me fez ser útil, porque na minha cabeça a parteira estava cuidando da criança, e ver Tâmara sofrer me enchia de culpa.
Tâmara passou a ser muito importante na hora do parto e senti que tinha que ajudá-la porque ela precisava ouvir minha voz e entender que eu estava ao lado dela, que a amava e que ia salva-la.
Veio então depois de 12 horas o nascimento da Yana, fiquei emocionado de uma maneira nunca antes experimentada, o tempo tinha parado naquele momento. A imagem não era como eu tinha pensado, a criança chegou linda e limpa não tinha sangue, a mãe tinha um rosto sem dor tudo estava parado.
·Pós Parto
Aquela experiência mexeu muito comigo, se tento me recordar me emociono novamente.
Durante 2 dias chorei constantemente, depois disso descobri o amor e de uma maneira o milagre que é estar vivo, a pulsação do cordão umbilical que cortei de minha filha me mostrou a responsabilidade que eu tinha com aquela criança.
Deus me deu uma vida pra cuidar, eu pensei! A experiência me transformou numa pessoa muito superior que descobre o amor e que a vida é um milagre e que precisamos acreditar no mistério que rege tudo.
Fiz um ritual onde enterrei a placenta e agradeci a Deus a minha esposa e minha filha por ter me dado aquela emoção de saber que eu estou vivo e que sou parte daquele momento. Tenho escrito a todos sobre esta experiência e digo aos amigos que se puderem, nunca deixem de viver isto, em um hospital acho difícil vivenciar este momento.
Claro que as palavras dizem pouco, mas o que sei é o que o sentimento continua agindo dentro de todos na família. Agradeço muito também a Mary Galvão e a Liliana que me conduziram por aquele caminho.
Por Liliana Silvera, Assistente Perinatal e Doula Atua junto a Mary Galvão
Salvador, 17/05/2010, 14:17.
No mês de março num encontro com minha amiga parteira Mary, fui comunicada que uma gestante de 7° mês havia lhe telefonado para marcar uma consulta. Segundo ela, a gestante expressou interesse em parir em casa pois sua 1° filha nasceu em uma maternidade em São Paulo, há 2 anos, e lhe causou alguns problemas decorrentes das rotinas hospitalares. Nesta conversa foi relatado as impressões iniciais que a parteira teve com relação a gestante. Tâmara se mostrou calma, introspectiva e muito segura do seu posicionamento em relação a escolha do local do parto. Residindo no Brasil há 5 anos, ela é casada com um brasileiro, que conheceu em seu país- Inglaterra
Conheci Tâmara uma semana antes do parto, ela estava sendo acompanhada pela parteira (enfermeira obstetra) há cerca de um mês. Ela morava em São Paulo e chegou com a gravidez adiantada a Salvador, acompanhando a parteira numa das suas visitas domiciliares à gestante. Ela se queixava de cólicas. Parecia ser a iminência do trabalho de parto. A parteira acreditava que o trabalho de parto transcorresse rapidamente com pouca dor, pois Tâmara relatou que na sua primeira gravidez, há quase três anos, foi assim que as coisas aconteceram. Pouca dor e quando chegou ao hospital em São Paulo, já estava com 8cm de dilatação.Ficamos por uma hora na casa dela. Fui apresentada ao marido e à filhinha de quase dois anos. A parteira acompanhou os batimentos cardíacos do bebê e as contrações, que eram indolores e pouco intensas. Concluímos que eram os pródomos e que era melhor voltarmos às nossas casas.
Eu, que acabava de chegar naquela história, me coloquei na posição de observadora atenta e discreta. O final da gestação é um momento muito delicado, de expectativas, recolhimento e reflexões. Pessoas estranhas podem atrapalhar. Seja por causa de palpites indevidos, pela presença invasiva num momento tão íntimo, seja pelo desequilíbrio energético que possa vir a provocar no ambiente. Eu ainda me considerava estranha naquele processo.
Após uma semana, numa segunda-feira, 17/05, fui acordada às 03:30 por Mary: tudo indicava que o trabalho de parto começava. Pressentindo que o trabalho de parto iria transcorrer rapidamente, chegamos à casa de Tâmara. às 04:30. Chegando lá fomos recebidas na sala da casa por ela e seu marido Artur, que nos ofereceu chá.
Iniciamos uma conversa bem baixinho para não acordar a filhinha que dormia. Conversa pouca, para dar espaço ao silêncio, enquanto a parteira avaliava a intensidade das contrações de intensidade média a cada 20 minutos
Ficamos as três ali sentadas no sofá até as 8:00 horas acompanhando a evolução da dinâmica uterina. Antes disso, por volta das 07:00, a filhinha de Tâmara acordou e acabei me ocupando com ela. Essa “ocupação” foi providencial. Eu e Tâmara ainda estávamos nos acostumando uma com a outra, melhor dizendo, eu esperava que acontecesse alguma sintonia, já que não houve tempo para formar um vínculo afetivo. Participar do parto de alguém, ainda mais se tratando do ambiente doméstico, é algo que requer muita sutileza e afinidade. Era preciso que eu desse tempo natural para criar sintonia.
Quando as contrações se tornaram mais fortes e freqüentes, Mary e Tâmara foram para o quarto para o primeiro exame de toque vaginal. De lá veio a boa notícia: 7 cm de dilatação! Cogitamos (eu e a parteira) que o parto aconteceria por volta das 10:00. A partir daí as contrações se intensificaram, mantendo o intervalos regular de 20 minutos.. Por volta das 09:30, Tâmara estava com muita dor, foi acompanhada ao banheiro onde estava preparado previamente um banho relaxante com ervas e aromas.Sentindo-se cansada e com sede, pediu a Artur que lhe trouxesse um suco. O mesmo prontamente atendeu seu pedido com uma taça de suco de maracujá, que era para ser fraquinho, mas veio forte e foi tomado rapidamente. O clima na casa era bem tranqüilo, porém a filha pequena começou a ficar inquieta e foi levada para a casa de uma amiga da família. Sem a distração provocada pela inquietação da filha, as 10:30 Tâmara resolvei ir para o quarto que foi cuidadosamente preparado com um grande colchão tipo tatame, almofadas, travesseiros, velas, flores e aromas para acolher o momento do parto. O material a ser utilizado pela parteira bem como as roupinhas da bebê foi organizado numa mesinha próximo ao colchão
Tâmara já inquieta, experimentava várias posições buscando conforto. Quase não falava, porém mantinha-se ainda bastante atenta aos movimentos externos, observando o ambiente e nós à sua volta. Eu me aproximava aos poucos, preocupada em não atrapalhar o clima, mas também tentando relaxar e me inserir de forma tranqüila naquele cenário. O tempo foi passando, ela sentindo vontade de fazer força, ficou de quatro por um bom tempo. Depois, resolveu tentar ficar de cócoras e assim permaneceu entre o período das 11:00 às 12:30, tentando ajudar Yana nascer.
Durante esse período, sugerimos que ela mudasse de posição, que caminhasse um pouco entre as contrações, porque agora o intervalo entre as contrações era curto, cerca de 5 minutos. Mesmo com o grande poder de Tâmara e do nosso encorajamento verbal e físico porque eu e o marido ajudamos a mantê-la na posição de cócoras, ela falava que aquelas contrações não eram suficientes, que ela “parecia que não sabia fazer força direito”, que o plástico que estava embaixo do lençol não protegeria o colchão dos fluidos que saiam dela.
Decidimos gestualmente, deixar o casal a sós. Fomos para a sala. Também estávamos precisando de um tempo para respirar, falar sobre nossas impressões. O que estava acontecendo? O marido tinha me comentado que o primeiro parto foi “encorajado” por cerca de cinco enfermeiras através de puxos dirigidos, porque no 1° parto realizaram manobra de Kristeller. Comentei isso com Mary, que acrescentou que Tâmara relatou ter rsido submetida também ao uso de ocitocina sintética e episiotomia. Observamos que a parturiente mantinha-se mentalmente muito ativa, não se entregando ao processo (neocortex ativo). Deixei que Mary retornasse sozinha para o quarto. O marido parecia também estar tão inibido quanto eu. Por vezes ficamos os dois do lado de fora, esperando. Em algum momento resolvi fazer uma sopa, para a mãe tomar depois do parto. Essa atividade também me distrairia um pouco. Talvez servisse de estímulo, para ela, sentir o cheiro da comida, pois a cozinha ficava bem perto do quarto.
Até as 13:00, nos alternamos todos para dar suporte a Tâmara, que continuava insistindo em fazer força durante as contrações. Porém, o discurso dela, antes era autocrítico, passou a ser pessimista. Ela dizia que não conseguiria, que estava cansada e que pensava em ir ao hospital. Novamente a parteira e eu fomos para sala. Refletir sobre o motivo do prolongamento do período expulsivo. O marido saiu para levar alguma coisa para a filha, na casa da vizinha amiga. E agora? O bebê estava quase coroando. A cabecinha estava visível através da vulva já entreaberta. Os batimentos cardio-fetais continuavam rítmicos, mas ela sugeria ir para o hospital. O marido retornou e resolvemos conversar os quatro. Tâmara falava que estava com sono. Concluímos que o suco de maracujá oferecido à Tâmara surtiu efeito sedativo, e esse era o motivo dela estar tão sonolenta.
A parteira olhou para ela com firmeza, e informou que se ela optasse pelo hospital seria bem provavel a indicação de uma cesariana, haja visto que a decisão seria da equipe médica. Porém a decisão de ir ou não dependia tão somente dela.Mas ela só falava em dormir. Decidi me pronunciar, que ela dormisse se assim quisesse, e foi o que ocorreu. Tâmara dormiu por cerca de vinte minutos, de lado, com um travesseiro entre as pernas.
Após esse curto período, vieram ruídos do quarto. Gemidos cada vez mais altos. Será que algo estava acontecendo? Permanecemos atentas ouvindo os gemidos, foi então que. o marido nos chamou, e lá fomos nós. Estava perto das 14:00. Já tinha chovido e estiado, fazia um ventinho fresco. Nos acomodamos no quarto. A parteira deitada de lado, no colchão, olhando Tâmara. Eu ajoelhada na beira do colchão, perto dela, e o marido inquieto, de pé. Antes disso, Tâmara pedia comida, estava com fome. Tomou um café com leite, que seria mais conveniente, devido ao adiantado trabalho de parto. Tâmara voltou a se queixar de dor e não mais de desconforto. Ficou de quatro. Eu tinha me levantado, ido à cozinha, e quando voltei encontrei ela com aquele olhar selvagem, intolerante. Dizia que “estava vindo”. O marido, aparvalhado, de pé. Eu passei por trás dela e vi. O bebê tinha coroado! Tâmara gritou: “ venha Mary, tá nascendo!”.
Foram umas cinco contrações. Mudamos Tâmara de posição, para proteger o períneo e a vulva, pois o bebê vinha com muita força. Sentei junto dela, que se recostou nas almofadas. Segurei a sua coxa contra o meu peito, apoiei o seu pé na minha coxa. A parteira no meio, protegendo o períneo de Tâmara, que gritava: “ não vou agüentar, ta me rasgando”! O marido em pé, ao lado, continuava aparvalhado, a expressão do seu rosto era muito forte. Com três contrações Yana nasceu. Rosada, esperta, olhando tudo. Quase não chorou. Foi para o colo da mãe. O pai se aproximou chorando. Quando o cordão parou de pulsar, Mary convidou o pai a fazer o “ritual de separação” mãe-bebê, oferecendo-lhe a tesoura para proceder o corte. Nesse momento Mary entoava em ritmo de oração: “ é o pai quem corta os laços, esse é o seu papel” . Em seguida, ela se ajoelhou diante de Yogananda (seu mestre espiritual). Senti naquele momento a fé que me envolveu o tempo inteiro, mesmo nos momentos de desânimo.
Após o nascimento, Yana mamou por uma hora com pega perfeita, de livro didático. Depois de uma hora, ajudamos Tâmara a eliminar a placenta , que veio íntegra, amparando-a de cócoras. Pesamos e medimos Yana: 3,400kg; 51cm. Mais uma surpresa: a altura uterina sugeria um bebê bem menor. Se bem que a mãe dizia que ela não parecia se acomodar direito na barriga.. Olha aí o motivo. Acompanhei o curativo do umbigo, feito pela parteira, que conferiu o cordão umbilical. Ajudei o pai a dar o primeiro banho de Yana, no balde. Depois ele foi ajudar a parteira a cuidar de Tâmara. Eu fiquei cuidando daquela pessoinha tão esperta. Ela chupa dedo! Toda perfeitinha, linda!
Organizamos todo o quarto, a cama já estava arrumada e cheirosa quando Tâmara voltou do banho para tomar a sopa, com suco de uva e pão. Yana voltou a mamar quando a mãe terminou de comer. Já era quase noite e logo chegaram os pais de Tâmara, com a amiga e a outra filhinha dela. Uma festa! Eu e a parteira fomos saindo discretamente. O momento pertencia à família. Estava tudo muito bem.
Mais uma vez percebi que as pessoas e os seus processos, em especial os fisiológicos, têm o seu tempo. Não seguem padrões. Lembrando, o trabalho de parto transcorreu quase todo com contrações em intervalos de 20 minutos, aproximadamente. Não seguiu os padrões dos manuais de obstetrícia. A mãe estava muito mental, muito ligada? Talvez. Mas e se ela for assim? E se esse for o modo natural dela? Seria saudável tentar mudar esse jeito de ser? Seria possível mudar isso? Seria conveniente para quem? Estou concluindo, mais uma vez, que não dá para separar eventos biológicos, fisiológicos, da emoção, da história de vida da pessoa. Parece algo tão simples, tão natural. Mas a gente continua fragmentando e compartimentando tudo. Como é difícil deixar acontecer! Mesmo que mantenhamos uma vigia cuidadosa, como no caso de um trabalho de parto. Porém, é preciso dar tempo ao tempo. Dar tempo para mim. E dar tempo para mim é deixar que a minha ansiedade se vá. É ir para a cozinha fazer uma comidinha. É brincar com uma criança enquanto deixo alguém se acomodar com a minha presença. Às vezes sair discretamente quando a minha presença estiver inibindo, atrapalhando. Dar tempo para os outros. Para me permitir ser e permitir que as pessoas também sejam.
Na 1a visita pós-parto, 3° dia, após realizado a avaliação de Tâmara e Iana, observando o vínculo entre as duas, involução uterina e processo de amamentação, identificamos uma vibração familiar muito amorosa, com integração dos quatro de forma harmoniosa.
Artur não se cansava de expressar os sentimentos vivenciados durante todo o parto, referindo que ainda se mantinha sobre o efeito daquelas emoções, conforme seu próprio relato de experiência.
Estou aqui ainda na maior adrenalina com este blog! É um prazer muito grande poder fazer parte desse projeto que é, ao mesmo tempo, despretensioso e grandioso, porque aqui falamos, sobretudo, de vidas que começam do jeito mais natural possível.
Pois bem! Amanhã é meu aniversário e acho muito interessante o fato de tudo isso ter começado nesta semana, motivo pelo qual achei importante fazer um balanço e reviver coisas boas para compartilhar com quem vier aqui.
Como comentei no primeiro post do blog, a Mary é minha madrinha e moramos em cidades diferentes. Isso aconteceu desde antes de eu nascer, mas ela é muito responsável pelo meu nascimento e pelo meu nome, que todos gostam tanto.
Vou contar uma coisa de cada vez: Minha mãe não sabia se eu seria menina ou menino. Se eu fosse menino ela queria Pedro, mas se fosse menina que nome colocar? Lia, Bruna? Precisaria ser um nome pequeno. Então, a Mary falou para minha mãe: "Por que você não coloca Lara?" Ela gostou, mas ainda faltava tempo pra nascer, né?
Daí eu surpreendi e me apressei. Minha mãe, que nunca tinha tido contrações, (o parto da minha irmã foi cesárea) ligou pra Mary e ela disse "isso é dor de parto!". No dia 02 de setembro eu resolvi dar o ar da graça (parto normal)! Como era muito prematura, tinha risco de morrer, então meu pai disse: "fala um nome só pra batizar aqui no hospital e a nenê não morrer pagã, depois você pode mudar o nome" e minha mãe: "Ela vai ser Lara, não vai morrer e eu não vou mudar" e foi isso que aconteceu! Vaso ruim não quebra!
Olha eu aí! Tão "linda"
No comecinho da minha infância, a Mary não morava em São Paulo. Só me lembro dela a partir de uns três/quatro anos de idade. Ela queria muito que eu a chamasse de "dinda/dindinha", mas eu não conseguia. Só dizia "Mary" (e até hoje é assim). A Mary diz que quando eu era pequena eu dizia "você não é minha madrinha, minha madrinha é a tia Dida!" Eu não me lembro disso, mas hoje eu encho a boca pra dizer "A MINHA MADRINHA é parteira, faz isso, faz aquilo...".
Então, quando eu era criança, ela vivia querendo me conquistar, comprar presentes que eu ia gostar: fita da Xuxa, patins, passeios ao parque do Ibirapuera, todas essas tralhas que crianças adoram. Lembro que ela trabalhava num hospital e às vezes trazia uns quites com shappoozinho e fralda para eu brincar de boneca! Nossa eu amava! Quando eu tinha uns nove anos, ela me deu uma Barbie que ficava grávida e tinha um bebê. Era um modo de eu me aproximar da profissão dela.
Depois de uns dois anos lembro de ela ter me contado que era voluntária na favela Monte Azul com a Angela, uma amiga alemã dela, e lembro até que estive na inauguração de uma casa de parto que até hoje existe lá. Hoje, porém, o nome é casa Angela.
Depois disso, ela voltou a morar na Bahia, mas eu sempre acompanhei um pouco do trabalho dela. Sempre achei muito bacana, sempre tive muito orgulho. Há uns cinco anos a dissertação dela veio parar na minha mão e vi que eu fui uma das pessoas para quem ela dedicou a dissertação! Foi tão interessante. Na época (anos 1990), eu era tão pequena e nem sabia o que era vida acadêmica. (Atualmente faço mestrado na área de Letras).
Sempre procuro saber dos partos que ela faz e aí ela me mandou o relato do nascimento da Déa. Achei tão bonito e, ao mesmo tempo, um desperdício que isso ficasse parado no computador dela. Foi aí que sugeri que ela abrisse um blog para compartilhar com todos essas experiências tão ricas.
Acho que o blog é uma maneira de nós nos aproximarmos um pouco mais! Uma causa muito nobre não acham? Então, estou aqui me despedindo de vocês e dos meus 25 anos (quanto!!!) com muita alegria de fazer o blog acontecer.
Me chamo Leonardo Oliveira, brasileiro natural de Salvador e pai de Lis, uma menina muito especial e abençoada que nasceu no dia 12 de dezembro de 2010 aqui também em Salvador.
Sua mãe, Lais Barros, uma mulher determinada e muito corajosa sonhou e conseguiu realizar o nascimento de nossa filha em casa. Uma experiência mágica de indescritível grandeza!
Desde o início da gravidez essa idéia a acompanhava, que foi sendo amadurecida a cada dia com as práticas de yôga e assistindo a vídeos de partos domiciliares.
Foi chegando ao final da gravidez e ainda não tínhamos deixado nada certo, além disso, a mãe de Lais combatia o tempo todo contra essa idéia.
Tivemos a informação de uma enfermeira obstetra que realiza parto domiciliar, Mary Galvão, mulher forte e de grande conhecimento de parto natural, pena não termos a conhecido desde o inicio da gestação. Lais então, foi logo ao seu encontro, não tínhamos mais tempo a perder.
Ao chegar do trabalho, a encontrei muito feliz e entusiasmada. Ela me contou sobre a conversa que tiveram e que haviam marcado um segundo encontro para conversar comigo e com a mãe de Lais para esclarecer nossas dúvidas, criando assim um laço de confiança entre a gente.
Porém, o grande dia chegou e antes desse segundo encontro com Mary. No sábado, 11 de dezembro, Lais começou a sentir as contrações e a sua mãe ainda defendia a idéia de ter o parto no hospital, pois tinha muito medo que algo desse errado com a sua filha ou com o bebê.
Lais, contudo, não desistiu, ligou para Mary imediatamente e ela avisou que só iria chegar no outro dia pela manhã, pois estava fora de Salvador. Nos manteve, porém, tranqüilos, dando todas as coordenadas pelo telefone durante a madrugada.
Domingo, 12 de dezembro, às oito horas da manhã Mary chegou, trazendo com ela outra mulher, Susana Tapia, uma xamã parteira que veio do Equador para participar de uma conferência internacional de parto humanizado e por uma benção de um sagrado destino veio parar em nossa casa. As duas chegaram emanando luz para todos os lados nos deixando confortáveis e confiantes.
Mary fez o exame de toque e mediu 5 cm, em seguida, marcou o intervalo das contrações que estavam a cada 5 minutos.
Susana me pediu que eu conseguisse uma pequena piscina plástica para colocar Lais e eu fui correndo em um mercado comprar. Montamos embaixo do chuveiro e a enchemos com água quente para que ela pudesse relaxar.
Mary e Susana cuidaram muito bem de Lais durante todo o trabalho de parto, fazendo massagens, a alimentando e dando apoio com palavras de força.
Algumas vezes nos deixavam à sós para que vivenciássemos o nosso momento.
Assistindo ao trabalho das parteiras e depois de uma rápida conversa com Mary, Cláudia, a mãe de Lais, compreendeu a importância desse parto para a sua filha e se dispôs a ajudar também. Todos nós vibrávamos numa mesma força e harmonia para proporcionar um lindo nascimento a nossa pequena Lis.
O dia foi passando, deu meio dia, uma, duas, três, quatro horas e nada. Lá para as 6 horas da noite as contrações foram ficando mais intensas e vimos que era chegada a hora.
Mary e Susana foram preparara o “ninho” para o parto enquanto esperávamos no banheiro onde Lais relaxava na banheira.
Em seguida, fomos para o quarto e nos acomodamos em edredons forrados no chão. Encostei na parede e Lais se encostou em mim. A luz do quarto estava apagada haviam apenas velas, deixando um clima bastante confortável.
Susana como uma legitima xamã, fez um belo e poderoso ritual para chamar o bebê com ervas e cânticos. Que ritual! Inesquecível.
Passado alguns minutos, a bolsa rompeu, descendo muita água e então Lais ficou de cócoras dando inicio ao período expulsivo.
O nascimento em si foi rápido, ás 19:10 o bebê colocou a pontinha da cabeça para fora e escorregou nas mãos da Xamã, que me deu imediatamente para confortá-la e aquecê-la.
Chorei junto com a minha filha, foi fantástico! Em seguida a passei para a mãe, que a essa altura estava exausta e muito emocionada. Ficamos os três abraçados por um bom tempo até que chegou o momento de cortar o cordão umbilical.
Mary me instruiu como fazer e me passou o material. Antes de cortar, pedi permissão para a minha filha e sua mãe, pois ambas estavam conectadas há nove meses por ele. Foi um momento mais mágico do que o outro, com certeza não sentirei nada igual como nesse dia. Difícil descrever tamanha felicidade.
Nada disso seria possível sem essas mulheres: Mary com o seu conhecimento e total controle durante todo o trabalho, Susana, com o seu poder e sabedoria nos fazendo sentir protegidos a todo o tempo, Lais, minha companheira que com coragem e muito amor deu a luz a nossa filha de uma maneira tão linda e Lis, nossa pequena guerreira que foi quem escolheu ter vindo ao mundo dessa forma.
Bom dia! Fiz para nós, os leigos, uma listinha com as abreviaturas utilizadas nos relatos da Mary. Já estaremos familiarizados quando os próximos vierem!
A cada parto que assisto eu amplio minha compreensão a respeito da forma como as parteiras tradicionais se inserem neste cenário da assistência ao parto em comunidades isoladas, ancoradas no poder da fé.
O parto de Paulina, por exemplo, através do qual nos mantemos ainda conectadas, energeticamente, eu diria que sair dele com uma experiência novíssima, nada nunca encontrado em livros de obstetrícia e nem em relatos de colegas dessa área de partos normais. Aliás, naturais. Porque é assim que quero denominar os partos em que ajudo as mulheres e seus bebês... Naturais, sem ajuda de medicação, sem cortes ou qualquer tipo de intervenção, confiando no dom divino da mulher de parir e do bebê de nascer.
Geralmente antes de atender um parto, eu crio uma imagem ou uma realidade ainda não vivida para me acostumar com o caso e talvez para me preparar emocionalmente para a grande e nova vivência... E geralmente esta imagem é criada a partir da natureza da gestante, de sua forma de agir e de se relacionar com seu bebê. Durante as consultas de pré-natal e no tempo em que estamos juntas formando o vínculo, eu observo muito o comportamento e ouço atentamente suas falas... vou juntando tudinho e depois desenho uma cena de parto. Na maioria das vezes, a cena se materializa de acordo com minha criação visual e sensitiva.
No caso de Paulina, ao contrário, tudo saiu muito diferente e ainda assim foi tudo natural e lindo de se ver. Mais uma vez a experiência mostra o quanto a literatura é limitada. Os ensinamentos de Obstetrícia classificam e conceituam os trabalhos de parto como se todos fossem iguais. O que se vê, entretanto, na prática, é que cada e todo parto é completamente DIFERENTE.
Paulina completou 40 semanas na sexta-feira, 12 de agosto. Naquele dia fui fazer uma consulta domiciliar para ela e seu bebê. Naquele dia, procurei ficar mais tempo em sua casa, das 11 até as 17 horas. Conversamos muito, brincamos e almoçamos uma comidinha muito gostosa que seu companheiro Marcio preparou amorosamente para todos nós. Durante o tempo em que ele cozinhava, nós duas conversávamos sobre os ajustes finais do trabalho de parto. Aproveitamos para falar da necessidade do Plano de Parto (que havíamos lhe solicitado por e-mail no dia anterior) e também sobre questões de ordem operacional tais como o material e apoio necessário ao bom andamento do processo do parto. Durante aquele tempo calmo e numa fala muito sincera aproveitei o momento bastante oportuno para lhe informar sobre a importância da IG (idade gestacional) para a boa indicação para o parto domiciliar. Fui bastante clara quando informei que o parto domiciliar só deve ocorrer até 41 semanas e passados as 40 semanas e 5 dias seria bastante prudente retornar a Salvador para uma USG a fim de avaliar a quantidade de LA (líquido amniótico), bem como o grau de maturidade placentária.
Ela entendeu minha fala e demonstrou preocupação através de uma expressão facial típica de quem se assusta com a informação recebida. Mas eu, conscientemente, não voltei atrás e continuei pontuando questões que considero importantes nessa relação entre profissional e parturiente. Com clareza e responsabilidade fui listando cada tópico que a experiência me ensinou a respeitar neste processo tão importante para a gestante e tão vulnerável para a profissional.
Conclui minha visita domiciliar no final da tarde, depois de ter dormido durante quase 2 horas naquele friozinho de inverno gostoso. Na saída voltei a ressaltar a importância de seu trabalho de parto deflagrar o mais rápido possível. Assegurei-lhe que ficaria em Itaparica até que ela me chamasse em TP (trabalho de parto).
No sábado telefonei e ela avisou que havia dormido bem à noite, sem nenhuma alteração. Passei todo o dia conectada com Paulina e durante meus períodos de interiorização invoquei a Yemanjá e Nanã que lhe ajudassem a iniciar seu processo.
Após receber mensagem de Marcio, não quis mais dormir, neste momento começou meu plantão. Levantei tomei um banho, leguei para Liliana (04:30 horas) e em seguida fui para o templo de meditação. Às o dia clareou e eu resolvi que iria providenciar um carro para me levar até a Paulina. O fato de Paulina ser calma me levava a concluir que ela poderia ter um trabalho de parto pouco indolor, com dilatação abrupta e um trabalho de parto bem rápido como o que acompanhei no mês de julho (parto de Paulinha). Eu não gosto de chegar no atendimento quando o trabalho de parto já está na segunda fase final (mais de 7 cm de dilatação).
Prefiro acompanhar o processo desde o início, para que a parturiente receba os nossos cuidados. Por pensar assim acabo sempre chegando ao domicílio bem no início do TP, para observar e avaliar toda a evolução do processo.
Saí de casa as e fui direto para o Bom Despacho aguardar Liliana, que por problemas com o ferry-boat (para variar...) se atrasou e chegou as 6:30. Pegamos um táxi e às sete horas chegamos a casa de Paulina.
Fomos recebidas amorosamente por Márcio que ainda estava bem calminho.
Cumprimentamos Paulina que estava no primeiro quarto da casa, o escolhido por ela para ficar durante todo o processo. Este quartinho foi cuidadosamente ajeitado por eles para que pudesse acolher confortavelmente este período. Ali foi arrumado o nosso altar com todos os nossos santos, mestres, talismãs, objetos de valor sentimental e espiritual. Ali depositamos nossos propósitos e devotamos nossa fé. Naquele quarto também foi colocada uma rede pendurada no teto para servir de balanço, a piscina e o colchonete onde ela queria se acocorar para receber Dea.
Observei que Paulina estava calma, mas demonstrava um "certo incômodo" a cada 10 ou 15 minutos, expressado uma dor suportável. Ficamos sentadas no sofá da sala observando-a de longe. Não sugerimos ainda nenhum cuidado. Só na espreita... Às 8 horas sugerimos contar as contrações e ouvir o coração de Dea.
Desse modo, às 8 horas iniciamos o monitoramento do TP, com registro em prontuário da Dinâmica Uterina e da frequencia dos BCF (batimentos cardíacos fetais), bem como dos SV (sinais vitais) de Paulina. Encontramos contrações de média intensidade, rítmicas, com BCF de 150/minuto e bom ritmo.
Após nossa primeira avaliação, relaxamos, porque estimei que o trabalho de parto ainda estava na fase latente e que provavelmente o colo ainda estava na fase de apagamento.
Marcio nos convidou para um café gostoso com beiju e chapati e nos questionou sobre a possibilidade de uma caminhada na praia com Paulina. Eu achei a idéia ótima considerando o estágio do TP e a beleza do dia, ensolarado e muito iluminado. Convidei os presentes para fazer um trabalho espiritual no quartinho arrumado para Paulina permanecer durante o trabalho de parto. Ali sentamos, à frente do altar e iniciamos nossas orações para invocar a presença de Deus, dos Santos e arcanjos e convidá-los a integrar nosso grupo. Foi um momento importante, uma vez que este casal demonstra claramente uma forte conexão com o mundo da espiritualidade.
Após o café da manhã e das orações, saímos todos para a praia.
Mary e Paulina
Marcio ficou com Paulina aproveitando a maré baixa que favorece a formação de uma lagoa bem em frente a sua casa, Liliana ficou sentada nas pedras apreciando e fotografando as belas imagens daquele casal tão integrado ao processo de receber sua filha e eu fui caminhar para não perder meu hábito de me afastar para favorecer o vínculo com meu interior. Durante este trabalho prefiro me isolar para conectar-me com Yogananda e receber as mensagens que ele manda.
Lili nas pedras fotografando Marcio e Paulina na água
Retornamos da praia ao meio dia porque paulina reclamou de cansaço. Continuava sempre lhe observando, e as contrações permaneciam fracas.
Ao chegar à casa ela tomou banho de água doce no chuveirão do quintal e em seguida caminhou pelo quintal nua, como que procurando respostas que só as borboletas e bem-te-vis poderiam lhe dar. Algum tempo depois de caminhar em meio aquela vegetação exuberante ela deitou–se na rede do "oitão" e iniciou a fazer umas caretinhas “bem legais”... Aí, chamei Liliana e comentei: Vamos fazer uma segunda avaliação destas contrações? Lili saiu e voltou com a ficha e a caneta para iniciar o registro da dinâmica. Sentou-se ao lado dela e eu também fiquei bem próxima, lhe dando atenção especial.
Lili contando as contrações 1,2,3..
Por uma hora contamos dez contrações de trinta segundos. BCF 148/minuto, rítmicos. Nada de tampão mucoso, por enquanto. Às14 horas resolvemos deixá-la a sós com Marcio, para dar mais um momento de privacidade entre os dois. Saímos atrás de uma baiana para satisfazer nosso desejo de comer abará ou acarajé.
Retornamos uma hora depois e encontramos Paulina na mesma posição na rede. Agora com um prato de macarrão na mão, ela, sorrindo, olhou para nós e comentou: eu adoro macarrão! Ótimo, então coma teu macarrão! Ela não comeu tudo. Largou um pouco no prato depois de ter uma contração dolorosa, assim expressava seu rosto. Depois do almoço, Marcio muito animado comentou conosco: vamos fazer uma fogueira? Eu achei a idéia ótima, já que amo o fogo nestas ocasiões de ritos e mitos. Ele saiu e retornou com muita madeira que conseguiu na praia. Demonstrava disposição e alegria e enquanto ele arrumava a fogueira sua companheira lhe olhava com admiração. Nós registramos o momento com um comentário de valorização pelo seu belo trabalho de provedor: "Isso é que é um homem"!
Entre 16 e 18 horas todos nós nos recolhemos dentro da casa. Eu e Liliana fomos ler um livro. Eles também foram para o quarto. Sugerimos a Marcio oferecer uma massagem para Paulina e ele adorou a idéia, mas antes queria tomar um banho porque estava muito suado pelo árduo trabalho da manhã: lavou, limpou, fez almoço e fez fogueira. Estava exausto, coitado!
Enquanto Paulina estava em seu quarto recebendo a massagem de seu companheiro, eu aproveitei para cuidar um pouquinho de Liliana, que no oitavo mês de gestação mostrava muito cansaço e queixava-se de sentir-se exausta! Fiz massagem em seus pés e em seguida nas costas. Ah meu Deus, quantos nódulos na região cervical de Liliana!
Em seguida, percebendo que a Liliana continuava com sua mente agitada, eu lhe apliquei um toque de cranio-sacral, foi só assim que ela relaxou um pouquinho e cochilou por uns 30 minutos.
Por volta das 18:30, Paulina saiu de seu quarto registrando que a massagem tinha sido ótima. Foi direto para seu quartinho “aconchego” e se pendurou na rede do teto. Ali, naquela posição de pé e com os braços estendidos para o alto, ela se movia de um lado para outro buscando uma posição confortável quando as contrações apareciam.
Observamos que ela apresentava outro comportamento. Agora, mais incomodada, expressava dor! Contamos de novo as contrações e comprovamos que estas continuavam a cada 5 minutos, mas a duração agora era maior, 45 ou 50 segundos cada com uma intensidade média.
Por volta das 19:30, sugerimos uma avaliação dos BCF e talvez um exame de toque. Questionamos o que ela pensava de fazer avaliação do colo uterino naquele momento. Ela prontamente concordou e nós então iniciamos em seu quarto a avaliação desses dados.
A bebê estava ótima (146 batimentos cardíacos por minuto, ritmicos). O colo uterino estava totalmente apagado com dilatação em 8 cm. Tudo normal, fisiologicamente.
Paulina voltou para seu quartinho preferido e lá ficou até umas 20:30, se movendo e demonstrando dor e cansaço. Estimamos que este parto deveria ocorrer em 2 horas e por isso sugerimos um pouco de relaxamento na piscina com os chás das ervas! Para lhe dar mais suporte para o período expulsivo que logo iria começar. Ela adorou a idéia e ali começamos o processo trabalhoso de transportar água da cozinha para o quarto, local onde estava sua piscina. Paulina permaneceu na piscina por 2 horas, recebendo muitas massagens na região sacral e compressas quentes na região perineal. Nesse período controlamos os BCF a cada 30 minutos, somente para tranqüilizar a Mamãe, já que sabíamos que tudo corria bem. O coraçãozinho sempre forte e rítmico da bebê deixava Paulina feliz!
Queríamos sugerir a ela sair da água uma hora depois, mas ela demonstrava tanto conforto ali dentro, que nós fomos deixando o tempo passar. Nesse período (de 2 horas) nós não parávamos de repor água quente, trocando a cada 20 minutos a água fria por uma mais quentinha... sempre repondo as ervas relaxantes (alfazema, erva cidreira, mentraste) da grande panela que estava no fogo. Nesse momento, Marcio também se afastou por alguns minutos para acender a fogueira, porque acreditávamos que o parto aconteceria rapidinho. Apareceu um sentimento muito forte no ambiente, um misto de sagrado com gosto de nascimento! Experimentamos uma energia de celebração!
Às 23 horas sugerimos que ela saísse da água porque as contrações não aumentavam em número e nem em intensidade. Decidimos que ela deveria sair da água para ajudar o útero a retomar seu trabalho.
Por volta de ela nos questionou: o que está acontecendo comigo? Estou cansada! Eu então lhe disse que seu útero estava trabalhando, mas que estava tudo bem com ele e com a bebê. Sugeri ouvirmos seu coraçãozinho de novo. Os BCF continuavam rítmicos, mas sua localização era muito baixa, na região púbica.
Aí, aquecemos Paulina. Calçamos meias, cobrimos seu corpo com cobertores e ajeitamos uma posição confortável ali mesmo no colchonete. Neste período fomos secar o quartinho que estava todo alagado. Sentimos falta de Marcio e fomos procurá-lo, adivinhem onde estava o papai? Dormindo profundamente no quarto do casal. Cansado, coitado. De trabalhar, de esperar e de celebrar tantas emoções que este processo aciona em nossos corações! Dormiu por mais ou menos duas horas e meia, merecidamente papai!
Permaneci ali ao lado de Paulina.
Mary oferecendo suporte emocional a parturiente
No período entre 23 horas e da manhã, por mais ou menos 3 horas a dinâmica uterina de Paulina era a mesma do início da noite, contração curta de mais ou menos 40 segundos a cada 6 ou 7 minutos. Ela demonstrava cansaço, exaustão e me questionava o motivo da demora. Eu sempre lhe afirmava: está tudo indo bem, vamos esperar a hora em que a neném virá para seu colo. Auscultava de novo e estava lá: Tum-tum. Ouvir .o coração de Dea era a única coisa que consolava Paulina. Ela se fortalecia quando ouvia sua neném ali forte e firme num trabalho que era só das duas, numa parceria e cumplicidade que somente elas conseguiriam vencer!
Puxei um colchãozinho do outro quarto, onde Liliana descansava um pouquinho e me deitei ao lado de Paulina para massagear sua região sacra durante as contrações. Fiz chá de semente de quiabo e misturei com melaço de cana.
Quando eu estava na cozinha esquentando a água para o chá, Paulina me chamou: Mary", corre até o quarto! Ela me apontou a região púbica, dizendo é a bolsa, acho que furou! Examinei e vi o liquido escorrendo em pequena quantidade, mas claro, com rajos de sangue. Fiquei muito feliz e festejei. Ah, que delícia, o LA está limpinho, demonstrando que a bebê está em boas condições, suportando este TP tão prolongado! Fui lá dentro buscar o chá e dei para ela, dizendo: agora vamos nessa, que vai nascer. Ela bebeu tudo, cheia de fé e de vontade de colaborar no processo!
Continuávamos, madrugada adentro. Juntas, cansadas, mas firmes. Aguardando, respirando, cochilando entre o intervalo das contrações, que seguiam rítmicas e curtas, insuficientes para proceder a insinuação.
Não sei se a mistura funcionou, mas o fato é que a partir desta bebeção, as contrações aumentaram a intensidade e a freqüência (agora de 4/4 min), e a apresentação (cabeça fetal desceu até o terceiro plano, estava visível a olho nu). Neste momento, Paulina sentiu que estava mesmo chegando a hora, porque as dores ficaram muito fortes e ela começou então a gritar. Alto e fortemente, a cada contração. Marcio acordou, assim como Liliana e os vizinhos. Eles vieram prestar solidariedade e oferecer socorro.
Liliana foi lá fora acalmar a vizinha do lado e informar do que se tratava: uma neném estava nascendo! Ouvi uma fala feminina, mansa, perguntar: aí mesmo? E Liliana respondendo: é aqui mesmo que vai nascer, mas está tudo bem com ela, tem uma enfermeira obstetra ajudando.
Começamos literalmente a observar o processo em fase de expulsão, a cada contração a cabeça descia mais e mais. Paulina se tocou para certificar-se de que a bebê já estava ali, quase nascendo. Depois de umas dez contrações fortes, de 4/4 minutos, o períneo foi se afinando e se distendendo para ampliar sua abertura e permitir a passagem da cabecinha de Andrea, que calma e serenamente despontou neste planeta, sob o céu ainda iluminado pela lua cheia às 3:35 da madrugada. Nasce uma menina-estrela linda, rosada, chorando e emocionando os espectadores deste ritual divinamente sagrado!
O pai, ali atrás, sustentando a mãe acocorada, entrou em estado de graça, não acreditava no que estava vendo com seus próprios olhos... Pai e mãe admiravam a cena em total celebração enquanto Liliana se derretia em lágrimas. Quanto a mim, não podia nunca entregar os pontos, pois preciso estar ligada, ligadona, para cuidar de cada detalhe importante. Proteger o períneo e o meato urinário, controlar a velocidade do pólo cefálico, receber a bebê, avaliar se não tem circular de cordão, limpar a boquinha, secar rapidamente a cabecinha, entregar para a mãe, ajeitar a posição da mãe, atender as demandas práticas. TUDO A UM SÓ TEMPO! Estar atenta a tudo em volta.
Nesse momento, me joguei aos pés do mestre, dos orixás, dos anjos e arcanjos que me ajudaram e que me atenderam, me fortalecendo nos momentos de insegurança, de sono, de dúvida. Agradeço mil vezes por escolher estar neste cenário de fé e de mistérios. Este é o papel da parteira: se emocionar sim, se entregar JAMAIS!
Dea foi secada e aquecida, assim como Paulina. Nasceu muito bem, com Apgar 9 e 10. Marcio, muito emocionado, cortou o cordão umbilical, depois que ele cessou a pulsação, cumprindo o seu papel de separar parcialmente a ligação mãe-bebê, própria do período de gestação. Após a dequitação da placenta, às 4:15 da manhã. Vestimos Dea e transferimos mãe e filha para o quarto do casal, onde a cama já estava arrumada com lençóis limpos. A luz suave de uma luminária estava acesa, prestando o aconchego necessário ao momento. Devido ao frio e ao cansaço de todos, preferimos deixar os exames complementares de Dea para quando amanhecesse o dia. Paulina foi também vestida com um roupão atoalhado e vestiu uma fralda descartável. Apliquei no seu canal vaginal um emplastro de babosa e uma compressa gelada na vulva, para aliviar o edema da região. Liliana continuava prestando os cuidados à mãe e ao bebê recém-nascido, que já tentava abocanhar o seio com muita perseverança.
Por volta das cinco da manhã, Marcio saiu para fotografar o dia que nascia junto com a sua primeira filha: 15 de agosto de 2011. Eu e Liliana nos recolhemos ao quarto que nos foi destinado, para um descanso merecido, enquanto mãe e filha também descansavam do longo e árduo trabalho de parto.
Às sete e trinta da manhã levantamos da cama. Antes disso, Liliana levantou algumas vezes para observar e auxiliar mãe e filha que estavam alternando pequenos cochilos com mamadas. Fomos tomar o café da manhã, pois a família dormia profundamente. Quando retornamos, encontramos todos acordados, Paulina tomando o farto café da manhã preparado pelo seu companheiro, enquanto Dea estava acordada e esperta, deitadinha na cama.
Lili apoiando Paulina
Preparamos o material para o primeiro banho de Dea. Antes do banho, porém, iniciamos o exame físico da recém-nascida:
-Peso: 3,500kg;
-Estatura: 47cm;
-Perímetro cefálico: 33cm;
-Perímetro torácico: 35cm;
-Perímetro abdominal: 35cm;
-Cordão umbilical contendo duas artérias e uma veia;
-Reflexos neurológicos presentes.
Em seguida, iniciamos o banho de Dea. Junto aos pais, no quarto do casal, procedemos às orientações sobre os cuidados de higiene do bebê e do curativo do coto umbilical.
Depois, foi a vez de cuidarmos de Paulina, que caminhou sem dificuldades até o banheiro. Enquanto isso, Liliana segurava e embalava Dea, já impaciente pela ausência da mãe. Paulina foi banhada e lavou os cabelos. Retornou ao quarto, onde terminou de se enxugar. Foi examinada por mim, eu e Liliana observamos que o edema da vulva, de horas atrás, havia desaparecido. Paulina também não apresentou nenhuma laceração de períneo. O sangramento pós-parto apresentava-se moderado, sem anomalias. O útero apresentava-se em franca involução, típica do pós-parto imediato.
Paulina vestiu um vestido azul, penteou os cabelos e voltou para a cama amamentando a sua filhinha, Dea.
Depois que mãe e filha estavam acomodadas, eu, Liliana e Marcio nos dirigimos para o quintal. Iniciamos o ritual de agradecimento aos ancestrais da família, presentes em espírito na placenta. Neste ritual, fizemos orações em agradecimento à placenta, por ter nutrido Dea, e feito a comunicação perfeita entre mãe e filha, sustentando a gestação e o nascimento. Neste momento, também revisei a placenta, conferindo, através das suas estruturas anatômicas, a normalidade da gestação e da recém-nascida. Finalizamos o ritual, enterrando a placenta em um vaso, onde foi plantada uma muda de tangerina. Esta planta simbolizará o crescimento de Dea. O solo contido no vaso será o local de retorno da placenta à natureza.
Enfim, após todos estarem cuidados, eu e Liliana retornamos a nossas casas. Imensamente agradecidas pelo privilégio de participar do surgimento de uma nova família, através do nascimento de Dea.
Dois dias após o parto a adrenalina ainda está concentrada em meu sangue, mas eu estou muito feliz!