Deixe uma mensagem!

Suas opiniões e comentários serão bem vindos!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Relato do Parto de Liliana

















Por Mary Galvão




Meu corpo sinaliza através da
insônia, a necessidade de relatar para relembrar, reviver e resignificar o
parto como um processo da vida.




Contando e recontando me dou conta que
para elaborar o trabalho de parto, único e individual, estou colaborando
com o registro da história reprodutiva de cada mulher . .
.


Partilho aqui, as
etapas do processo de parto de Lili, parceira deste
caminho de parto domiciliar.


Lili combinou
previamente que seu parto seria assistido por mim Marilanda e Adriana (parteira
amiga e fotografa do Rio de Janeiro) que também estavam
na torcida para que este processo desencadeasse entre a 39ª e a 40ª semana
porque queríamos muito participar juntas desta experiência
importante da vida de Liliana. Programamos a parte operacional ao longo
da gestação. A vinda das parceiras do RJ, os dias para relaxamento
e rituais em
Itaparica. Tudo
começou com a chegada de Marilanda no
dia 8/09 e Adriana no dia 10. Lili completou 40 semanas no dia 14. Começamos a
curtir o prenúncio deste período, ouvindo e acolhendo as queixas da Lili.
As contrações de Braxton-Hicks começavam a lhe incomodar durante a noite e
quando ela caminhava ou se sobrecarregava de atividades físicas.
Aguardamos pelo início do TP juntos (eu, Lili, Marilanda, Adriana e
Gugu) na casa de Itaparica, na semana da 40ª semana.


Entretanto, o
TP não ocorreu como nós prevíamos. Até hoje, a ciência não
explica o determinismo do trabalho de parto e seu desencadeamento ocorre
com uma grande variação para a maioria das parturientes. Pode ocorrer a partir
da 38ª até 42ª semana sem que a mulher possa escolher ou decidir
sobre os sinais de seu próprio corpo.




Como o TP não desencadeou nesta semana, os deliciosos dias de
relaxamento, prazeres e muitas alegrias, que foram especialmente programados
para cuidar e mimar a nossa Lili chegaram ao fim. No dia 19, as amigas
retornaram ao Rio para atender uma parturiente na mesma condição de Lili.
Aqui ficamos nós (eu, ela e Julia minha assistente de parto) aguardando o
grande momento).


Confesso que eu era
a mais ansiosa do grupo, pois Lili aproveitava para curtir
todos os momentos desta gestação tão desejada.


Talvez a intuição de parteira tivesse me sinalizado um trabalho de parto
efetivamente laborioso. O histórico de Lili demonstrava que o
processo seria demorado: duas cesáreas anteriores, um bebê
grande avaliado em 3,700 e uma gestação muito sobrecarregada com excesso de
trabalho e pouco tempo para se cuidar e para pratica de exercícios físicos.

O fato é que intuímos previamente que não seria um parto rápido e fácil.




Trabalhamos esta
questão com ela durante a semana que antecedeu o parto... De um jeito
bem amoroso Marilanda utilizando da sua experiência de psicodramatista,
provocava em Lili uma reflexão sobre como seria seu parto.. Ela entendeu,
demonstrando estar preparada e acatando as sugestões das amigas parteiras com a
doce anuência de Adriana. Após viagem das amigas, continuei bem próxima de
Lili. Fui visitá-la na teça-feira, dia 21 para incentivar a participação de
Clara e Letícia, suas filhas de 11 e 5 anos, no ritual da despedida do
barrigão. Ulla (amiga querida) foi junto comigo. Combinamos tudo pelo Facebook.
Foi lindo ver as meninas desenhando e interpretando as telas (barrrigão
dividido ao meio).



Na quinta-feira,
dia 23, voltei lá para uma segunda visita. Passei a tarde toda curtindo a família
do bebê, vovó Lea fez bolo de milho sem ovo para incrementar o lanche e o
titio contou suas histórias engraçadas e tomou café conosco. Todos observávamos
Lili, que se queixava muito de dores na região lombo-sacra e nas coxas,
demonstrando certa irritação com o barulho causado pelo conserto de um portão
lá embaixo, chegou a reclamar até de seu cachorrinho Fofucho que latia e
latia porque já sacava novidades na área! Naquela tarde, constatei que ela
encontrava-se nos prodromos de trabalho de parto, tendo contrações sem ritmo
freqüente.


Aproveitei a oportunidade para
pedir sua autorização para atravessar a Baia de Todos os
Santos. Precisava descansar em minha casinha silenciosa do lado de
lá do stress dessa louca metrópole. Ela me liberou.




Na sexta-feira,
antes de viajar (a ilha dista de Salvador em 40 minutos de
lancha) eu lhe telefonei e perguntei sobre a noite... E ela respondeu: “mal
dormida como durante a última semana".



Chegando em casa, dormi durante toda a tarde. À noite fui caminhar no
Cais com uma amiga de Jequié que veio me visitar. Observando o movimento da água senti a
presença de Yemanjá e aí recordei automaticamente de Lili. Neste exato momento,
a Marilanda ligou do Rio para perguntar da evolução do caso e para contar que estava
voltando da visita à sua parturiente (Diana) vivenciando o mesmo processo de
contrações sem ritmo embora dolorosas. Liguei novamente para Lili,
consciente de minha pressão disfarçada de cuidado. Ela queixou-se de dores,
mais incômodas e freqüentes. As contrações estavam lhe alertando que aí vinha
coisa... Perguntei se achava melhor eu retornar para dormir em Salvador e
ela disse que não seria necessário, me manteria informada da evolução do
processo.



Ao despertar pela manhã, observei
que o torpedo no celular, era ela avisando: ‘’Estou em TP.. não dormi a noite’’. Ah! Que alivio, confesso que amei a noticia... Vamos que vamos! Liguei
para Julia, solicitando que ela fosse imediamente acompanhar nossa
parturiente de perto. Ai, então, pude retornar calmamente para Salvador..
viajei todo o percurso, observando o belo azul do mar e fazendo a conexão
com o amado Gurudeva. Pedi tranquilidade e clareza para acompanhar
este parto - não era como de outras mulheres... Lili era muito próxima e
eu me sentia muito envolvida emocionalmente neste processo.




Gugu, marido de Liliana,
gentilmente se ofereceu para me apanhar na lancha. Na vinda para casa passamos
na Feira de São Joaquim para tentar encontrar o BACIÃO que procurávamos há um
mês. Queríamos também comprar flores e ervas para Yemanjá. Encontrei Lili
tranquila embora em
franco TP
, os BCFs estavam rítmicos em 145 bat/min,
contrações rítmicas e fortes (40 segundos) com intervalo de 5/5 minutos.



Inicialmente, estranhei o padrão
das contrações, mas em seguida reconsiderei supondo que poderia
estar no período expulsivo. Quando cheguei não sugeri exame de toque porque
era preciso observar mais e assim o fizemos: observamos, organizamos
os detalhes do ambiente... arrumamos o nosso altar para o apoio espiritual
e preparamos um banho com ervas para Lili.. 2 horas após minha chegada, ela começava a expressar cansaço .




Enchemos a grande
(enorme) bacia que compramos na Feira, com as ervas aromáticas e ali começamos
o ritual de banhar o barrigão de Lili para promover um relaxamento do útero.
Depois de 35 minutos de banho de imersão, Lili pediu para sair da água, estava
muito cansada daquela posição. Pedia para se alongar, necessitava de movimentos...
Saiu da água, caminhou exaustivamente da sala para o
quarto e em seguida deitou-se recostada na sua cama e conseguiu relaxar por
20 minutos. As contrações deram uma pequena trégua. Mas depois disso o
útero retomou seu trabalho num ritmo acelerado. Sugerimos um exame de toque e
ai veio uma surpresa: o colo embora 50% apagado só apresentava dilatação
de 2 cm.
Conversamos com Julia sobre o caso e depois concluímos que
seria importante Lili retornar para o chuveiro para abrandar o
útero que apresentava um ritmo de trabalho avassalador. O intervalo
entre as contrações chegou a 3 minutos e nosso foco
agora era acompanhar regularmente os BCFs.




Passamos o período
da tarde nessa observação atenta: de longe para não assustar Lili que andava
sem parar e gemia um gemido muito dolorido e profundo de dar
dó: "tá doendo demais, tá demais"... Intuímos que
algo estava acontecendo sentimos que as contrações eram atípicas.


Comentei com Julia minhas impressões e ela
concordou que Liliana estava muito cansada.. Ao final da tarde, Júlia precisava
ir embora porque no dia seguinte ia prestar o concurso da Secretaria Municipal
de Saúde. Sugeri que ela saísse bem discretamente para não ativar o neocortex
de Lili, que se manteve mentalmente ativa durante todo o trabalho de parto.




Considerando minha
pouca experiência com parturientes de cesárea anterior, recordamos a
postura rígida da medicina tecnicista quanto ao risco de rotura uterina e
ai lá veio aquele medinho que sobe um friozinho no estômago.. Quando
o medo vinha, redobrava as orações rogando ao mestre uma conduta adequada e
fixava nosso olhar piedoso para Lili que corajosamente aceitava o desafio imposto
pela sua fisiologia que mais me indicava um padrão de anormalidade. Ao final da
tarde, sugerimos uma hipótese diagnóstica: Seria uma distócia funcional por
desproporção, meu Deus? Não. Não é correto fechar diagnóstico ainda... Vamos
observar mais um pouco...

Às 21 horas de
sábado, 20 horas após iniciado o TP nós fizemos um segundo toque porque
achamos necessário avaliar a evolução do caso... Lili continuava
com o mesmo quadro: colo apagado em 50% e a dilatação em 2 cm. Aí falei calmamente para ela: “O colo tá
bem fininho, a cabeçinha do bebê tá bem insinuada, mas a dilatação continua em 2 cm...” Esperei sua reação e
ela falou bem baixinho: ‘’quero esperar mais um tempinho”, e eu perguntei até meia-noite, pode ser? Ela sinalizou
que sim com a cabeça, mas sua capacidade física tava se esgotando. Eu vi
claramente seu estado de exaustão.


Às 3 horas fizemos
uma reavaliação e os BCFs se mantinham rítmicos, mas o exame de toque foi difícil
porque Lili não suportava nenhum estímulo, chegando a seu limite máximo de
tolerância das dores que as contrações distócicas estavam lhe causando. Ela atentamente observava minha reação
facial após o toque, mas quando lhe informei que o colo permanecia em dois
centímetros de dilatação ela decidiu. Sim, foi ela quem decidiu
juntamente com seu bebê: "Não dá mais, agora quero colocar meu bebê no
colo. Quero ir para a Maternidade”. Eu vibrei junto e repeti: "Ok Lili,
então vamos!” Ela precisava de apoio em sua decisão e aí eu falei olhando em
seus olhos: "Seu bebê também está muito cansado querida, o stress que as
contrações estão lhe causando está sendo revelado pelos seus
movimentos repetidos de flexão e extensão dos membros intra-útero”.



Na madrugada de
domingo Liliana desafiou e superou sua capacidade de tolerância a DOR, porque
seu organismo não estava produzindo endorfina, ela repetia várias vezes, "Tá
muito forte meu neném, tem algo errado... tá demais meu filho, vem logo, vem
bebê...”


Quando Lili decidiu
ir para Maternidade Sagrada Família, chamamos Gugu e Ulla que
estavam descansando da noite punk. Gugu devia estar cansado também. Afinal ele
teve um longo dia de muito trabalho e apoio ao núcleo familiar.
Neste momento, entretanto, ele prontamente levantou-se e
cumpriu responsavelmente seu papel de pai e companheiro dedicado que
demonstra ser. Ulla logo compreendeu a decisão de Lili e nos ajudou muito no apoio emocional...
Sua energia amorosa e serena favoreceu a harmonia do ambiente no momento tão
singular.


Chegamos à
Maternidade às 4 horas da manhã de
domingo e concluída toda burocracia da internação, Lili
foi transferida para o Centro Cirúrgico. Às 05h55min de 25 de setembro de 2011, nasceu de
parto cesariana por decisão compartilhada com sua própria
mãe, Gustavo Samir Silveira Silva. Nasceu em boas condições de vida, com
Apgar 8/10 e com um pesinho "bobo" de 3,900 kg para confirmar a
hipótese diagnóstica da parteira, distócia funcional por desproporção cefalo-pelvica.



No dia seguinte, ao ver Gustavo em
seu bercinho ao lado de sua mãe, um sentimento novo invadiu meu coração e
me fez reconhecer que a beleza do nascimento supera paradigmas. Um bebê
sempre anuncia a esperança de novos tempos.




A partir dessa
experiência, surgiram algumas indagações que acho importante registrar:



1-Não é humano sentir medo
em situações desta natureza? Nossa memória celular não carrega o medo do
parto há séculos?


2-Não é salutar tentar e colocar nossa
natureza à prova?

3-Não é salutar saber até onde podemos aguentar?



4-Não é prudente dar um basta quando nossa
intuição nos comunica dos limites entre o saudável e o radicalismo?



5-Não foi interessante Lili tentar superar
seu próprio limite?



6- Não foi bom deixar o bom senso prevalecer
quando resolvemos procurar um hospital para evitar que o bebê entrasse num
quadro de sofrimento agudo?



7-Não foi maravilhoso receber
Gustavo com saúde e pronto para sugar o peito quente de sua mãe corajosa?




Aqui rendo minhas
homenagens sinceras a você, LIli, que sensivelmente decidiu
enfrentar seu primeiro TP com determinação, coragem e bom senso.



E quanto
à minha responsabilidade na condição de enfermeira obstetra e
parteira, admito humildemente minha tensão neste processo de acompanhar um
trabalho de parto laborioso de uma companheira de trabalho e amiga querida. Estou
feliz pela nossa capacidade de admitir e aceitar o limite
entre a linha daquilo que idealizamos e sonhamos e do que
foi possível vivenciar. Valeu a nossa sincronia quando decidimos que
uma cesariana era a melhor indicação para resolver a incompatibilidade
feto-pélvica e salvaguardar o bem estar de seu bebê.


Parabéns para Lili
que aplicou na hora certa nossa lição preferida, a capacidade de
rever, reconsiderar e admitir que em nossa profissão, o BOM SENSO sempre
deve prevalecer. A vida é um dom sagrado, muito além de nossos desejos.









quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O NASCIMENTO DE GUSTAVO






Por Liliana Silveira
Gustavo nasceu há dez dias no hospital. Retornamos para casa quatro dias depois. Lembrar das últimas semanas da gestação, e principalmente dos dias que antecederam o seu nascimento ainda me parecem como entrar numa outra dimensão. Aqueles foram dias muito intensos. Dias de reflexões e descobertas, às vezes, perturbadoras.
Antes de continuar com o meu relato, preciso contar um pouco das gestações anteriores. Tive duas cesarianas, a primeira aos 26 anos. Esta, totalmente equivocada, satisfez apenas às necessidades da obstetra, que declarou, meses depois, entender o parto natural como algo feio e violento, logo, desnecessário. Eu, naquela época tinha apenas um desejo muito grande de participar do nascimento da minha primeira filha. Mas, como a maioria das mulheres, era cativa da cultura médica de cuidados com a saúde. Sequer imaginava existir a possibilidade de ter um parto natural e domiciliar. Porém, imediatamente após a intervenção cirúrgica, surgiu uma inquietação muito grande dentro de mim. Passei a me questionar sobre o porquê daquele trabalho de parto ter sido conduzido para uma cesariana. As justificativas de “possível circular de cordão” e “possível sofrimento fetal”, sem qualquer indício, não me convenciam.
Busquei respostas, e depois de alguns anos, resolvi fazer um curso para ser Doula. Muito além da frustração em relação ao parto, a maternidade se instalou na minha vida de forma avassaladora. Fui transformada em outra pessoa, e a cada nova experiência eu submergia em cada etapa do desenvolvimento da minha filha e do meu amadurecimento como mãe.
Aos 32 anos me tornei mãe novamente, de outra menina, e a via de parto foi a mesma, cesariana. Dessa vez, o tempo gestacional (quase 41 semanas) e as dificuldades emocionais pelas quais eu passava foram determinantes para o desfecho daquela gestação. Porém, o fato de ter conhecimentos, de saber o que queria, potencializou o sentimento de frustração. Tive um pós-parto muito difícil, dolorido na alma, acompanhado do sentimento constante de querer voltar no tempo para mudar os acontecimentos.
Para sair dessa situação, foi preciso buscar respostas dentro de mim. De onde vinha essa relação tão intensa com a maternidade? Por que parir era tão importante? Ainda não tenho as respostas completas, apenas partes delas. Aqui não cabem as observações detalhadas anotadas no meu diário... Ser mãe sempre foi uma certeza na minha vida, ainda que, quando adolescente negasse essa possibilidade. Ainda criança, era fascinada pelas barrigas grávidas de familiares e vizinhas. Também ali já se mostrava presente a minha vocação pelos fenômenos da vida. Foi simples optar pela área da Biologia como profissão.
O tempo passou, e além da imensa vontade de ter a oportunidade de “tentar” parir, sentia que não poderia sair dessa vida sem ter mais um filho (ou filha!). Sentia que alguém mais precisava vir a esse mundo através de mim, era uma missão. Desse modo, engravidei em dezembro de 2010. Nunca o meu corpo tinha funcionado de tão bem, com todos os sinais do período fértil se aproximando. Apesar dos “ovários micropolicísiticos”, de um hipotireoidismo descoberto em 2008 e dos quase 37 anos (porque agora parece que é consenso no meio científico que a partir dos 35 estamos praticamente “menopausadas”...), engravidei maravilhosamente. Esqueci de tomar a pílula, comuniquei ao marido, não usamos outro método anticoncepcional e fiquei grávida.
Mantive a gravidez em segredo por quase dois meses. Precisava desse tempo para mim e o meu filho. Comuniquei logo a Mary, para saber se ela toparia a empreitada de acompanhar meu pré-natal e o parto. Lembro que telefonei para ela sussurrei a notícia. Depois de contar a notícia para Gugu (meu marido), fui até a casa de Mary e passei um domingo maravilhoso com ela. Iniciamos os cuidados pré-natais com um maravilhoso banho quente de alfazema, depois da praia e do banho de mar.
A gestação evoluiu muito bem. Apesar da minha correria diária. Faculdade pela manhã, trabalho à tarde (e uma vez por semana, à noite também), e todas as atribuições que têm as mulheres-mães. Ou seja, não foi exatamente um “mar de rosas”... Logo fiquei cansada, meio “sorumbática”. Nada de anemia ou qualquer outro problema associado à gestação. Apenas muito cansaço físico e emocional. Levei algumas broncas de Mary para entender que era preciso desacelerar. Eu sabia disso, mas como é difícil colocar em prática o discurso de Doula! Mary também me recomendava exercícios físicos, pois engravidei com algum sobrepeso e tenho uma estrutura física bem grandinha, então precisava cuidar do físico também se quisesse ter um parto de verdade. Aos sete meses de gestação, iniciei as aulas de dança-do-ventre. Uma delícia, para o corpo e a alma feminina!
Enfim, chegamos ao final da gestação. Sentia muitas dores no baixo ventre, dores musculares mesmo. A barriga cresceu muito e, penso que o meu corpinho sobrecarregado já não estava dando conta. Porém, ainda encontrei disposição para estar no parto de Paulina. Mais uma grande honra e um grande aprendizado. No final de agosto dei um tempo do trabalho e da faculdade, pois estava difícil subir nos ônibus e fazer as caminhadas que fazem parte da minha rotina. No dia 8 de setembro Marilanda (amiga e parteira urbana carioca) chegou. Eu estava com 39 semanas e aí a ficha finalmente caiu. A qualquer hora o meu bebê poderia chegar. Alguns dias depois, Adriana (fotógrafa e artista) chegou. Pronto, o time estava completo.
Recebi inúmeros presentes enquanto esperava o meu bebê. O carinho dos meus colegas de trabalho e de faculdade, dos meus alunos queridos. E, estar com as minhas “amigas de parto”, foi mais que um presente. Passamos dias maravilhosos na Ilha de Itaparica, que já comentei antes e comentarei mais tarde com mais detalhes.
A espera continuava, os dias passando, contrações intensas, porém indolores, acontecendo e o trabalho de parto sem dar sinais. Entrei na 40ª semana. Marilanda e Adriana precisavam retornar ao Rio, pois tinham mais um parto para acompanhar exatamente por aqueles dias. No domingo que antecedeu o retorno delas, nos reunimos no quarto, na casa de Mary. Após o exame, que revelou um colo fechado e ainda posterior, Marilanda disse que ainda levaria tempo para amadurecer, talvez uns 10 dias. Entrei em desespero. Revivi aquela situação conhecida do tempo que está se esgotando. Gugu me chamou a atenção para o meu estado e espírito. Era melhor me acalmar, tentar pensar positivo. Nada estava definido ainda. Tinha uma ultrassonografia para o dia seguinte, desse modo saberíamos em que condições estavam a placenta e a quantidade de líquido amniótico para seguir esperando.
Resolvi me acalmar, aproveitar a noite de aconchego com Gugu. Outro aprendizado importante: se as coisas estão ficando difíceis, melhor buscar conforto, compreensão (sobretudo interna, dar-se um tempo!) e esquecer um pouco o que está acontecendo. Na manhã de segunda-feira, após o café da manhã, “levantamos acampamento”. Lembro de ter acordado meio triste, mas o astral da turma não me deixou desanimar.
No exame de ultrassonografia reencontrei o médico que tinha feito um dos exames da gravidez anterior, quase seis anos atrás. Para nossa surpresa, defensor do parto natural, super-gente-boa. Marilanda viu o sexo do bebê. Estava tudo bem, boa quantidade de líquido, placenta funcionando super-bem. O bebê já tinha peso estimado em 3,700kg, porém, ainda alto. Levaria ainda uns 5 dias para nascer, o que significava mais algum ganho de peso. Saímos do consultório em estado de graça. Estava tudo bem!
Levamos Marilanda e Adriana para o aeroporto. Na despedida, a minha vontade de que fosse possível elas retornarem para estar conosco na hora do parto. Nos abraçamos, eu mais animada, resolvida a manter a alegria e a esperança em alta.
Os dias passaram, na quarta-feira completava 41 semanas. Fiz uma sessão de acumpuntura, para estimular o início do trabalho de parto. Na quinta, tive muitas contrações (ainda dos pródomos) e dores nos quadris. Na sexta-feira, saí com a minha mãe para resolver umas coisas na faculdade e comprar umas coisinhas do bebê que ainda faltavam. Fiz questão de caminhar bastante. Cheguei em casa no início da tarde, bem cansada. À noite, percebi as contrações se tornando mais freqüentes e ritmadas. Resolvi ficar sentada na bola suíça, fazendo movimentos circulares e de cima para baixo. Por volta das nove da noite comecei a anotar a dinâmica uterina e auscultar o bebê. Uma contração dolorida a cada dez minutos, com duração d 40-60 segundos. Fiquei muito contente. Finalmente! Eu conseguiria!
A noite avançou, o trabalho de parto se intensificou e ao amanhecer de sábado eu já estava bem cansada. As contrações já eram muito dolorosas, e duravam até um minuto e meio. A bola já tinha ficado desagradável há muito tempo. Iniciei as caminhadas pela casa, era a única forma de suportar as contrações. Às oito horas liguei para Mary, ela estava na Ilha e logo estaria comigo. Júlia, enfermeira, ex-aluna de Mary, viria antes para ficar comigo.
Quando Julia chegou foi um alívio. Eu estava precisando de ajuda, mesmo que fosse “apenas” alguém para estar perto de mim. Gugu já estava preparando as meninas para irem à casa da avó. Tínhamos combinado que seria melhor assim. Julia me abraçou, fez massagem, me mostrou que eu não estava sozinha. Foi muito importante. Algum tempo depois Mary chegou. E, ao ver o meu estado, ficou muito séria. Percebi isso. Mas não tinha condições de conversar. As contrações vinham uma atrás da outra, muito doloridas. Depois de me observar um pouco e verificar a dinâmica uterina anotada por mim, inicialmente, e depois por Julia, Mary resolveu me colocar na água morna. Para acalmar o útero. Os batimentos cardíacos do bebê continuavam muito bem.
Com as contrações mais desaceleradas, algum tempo depois, fui para o meu quarto tentar descansar um pouco. Logo as contrações retomaram o ritmo anterior. Assim eu passei a tarde e a noite de sábado para domingo. Perdi a noção do tempo. De tão cansada, cochilava entre uma contração e outra e acreditava que se passavam muitos minutos entre elas. Chegava a sonhar, devo ter falado coisas sem sentido. Depois Julia me disse que o intervalo entre elas não era maior que 5 minutos... Lembro de ter tentado dançar, balançar o corpo enquanto caminhava, me animar. Funcionou por algum tempo. Mas logo as dores se tornavam mais fortes, me imobilizavam. Eu só conseguia caminhar, gemer muito alto, socar as paredes e me pendurar na parede do chuveiro. Eu não suportava qualquer toque na barriga ou na região lombar, pois sentia mais dor ainda. Porém, a presença de Mary e Julia era muito importante. Elas também me ajudaram a afastar o medo e a solidão. Principalmente quando o dia foi terminando e escureceu. Mary também arrumou os nossos símbolos de fé reunidos num altar, como sempre fazemos nos partos que acompanhamos, na sala da minha casa. A foto de Yogananda (que tantas vezes me inspirou nos partos que acompanhei e que me deu conforto durante a minha caminhada), a foto de Angela Gerke, o jarro com flores brancas, os meus santinhos, as velas, os incensos... Senti força e acolhimento.
Tentamos desacelerar as contrações na imersão em água morna, com ervas, mais duas vezes. Ao longo do tempo eu conversava com o meu bebê, chamava ele para que viesse logo, que não tivesse medo, que nós conseguiríamos.
Mais tarde, no meio da noite, Gugu chegou com Ulla. Duas presenças muito importantes. Gugu me deu segurança. Ulla, com a sua leveza, foi uma presença ao mesmo tempo marcante e suave. Um dia desses Gugu comentou sobre o cheiro bom que sentiu na casa, quando chegou. É o cheiro do trabalho de parto acompanhado com amor e atenção.
Mary fez quatro exames de toque. O primeiro no início da tarde. Colo fechado, ainda posterior. No segundo, o colo estava apagando. No terceiro, já à noite (sábado para domingo), mostrou colo apagado com menos de 2cm de dilatação. Nesse momento, conversamos. Eu já estava perguntando a Mary o que poderia estar errado. Na verdade, sentia que algo estava errado, pois não sentia nenhuma progressão do trabalho de parto, sentia que todas aquelas contrações não estavam levando o colo do útero a abrir-se. Ao contrário, ele continuava resistindo. As dores eram tão fortes que não me permitiam qualquer movimento. Eu sentia o baixo ventre travado, e comecei a me preocupar com a possibilidade de uma ruptura uterina e com a resistência do bebê, que já se encontrava bastante inquieto. No meu trabalho como doula, vejo as mulheres buscarem posições que favorecem o nascimento. Em mim, as contrações estavam produzindo imobilidade. O coraçãozinho do bebê continuava forte, resistindo bem e o foco já tinha baixado muito, era alcançado na altura dos pelos pubianos. Resolvemos aguardar mais um pouco, mais uma hora e ver se acontecia uma dilatação eficiente.
Ás 3 da manhã, Mary fez o último toque. O colo não progredira na dilatação. Já havia uma bossa na cabeça do bebê. Alcancei o meu limite. A minha intuição me dizia que não adiantava insistir, nós estávamos em risco. Foi claro e simples como água decidir ir ao hospital. Era hora de ceder, no meu caso, optar pela minha vida e pela do meu filho. Era hora de segurá-lo nos meus braços e nada mais importava. Mary concordou, as nossas impressões eram iguais.
Chamamos Gugu, que estava no nosso quarto, e fomos todos para o hospital. Eu não tinha expectativas maiores do que receber o meu filho. Como seria, eu já imaginava. Foquei a minha atenção no objetivo que me levou até lá e não dei atenção a “detalhes” como a frieza da equipe médica, ao medo do processo cirúrgico ou a uma possível sensação de frustração. Passei mal durante a cirurgia, muita falta de ar.
Logo ouvi os sons de Gustavo, que parecia gargarejar, sendo passado sobre mim. Era um menino! Eu sabia. Nasceu às 05:59 do dia 25 de setembro. Lindo, grande e forte. Cheio de cabelos e pelos, com 3,900kg e 55cm.
Algum tempo depois fui levada ao quarto e encontrei Mary, Gugu e Ulla. Mary chorava. Todos felizes e aliviados depois da nossa odisséia. Sim, é como me lembro daquelas duas noites e um dia de trabalho de parto. Momentos selvagens, de enfrentamento, de paciência. Foi uma luta para mim e para meu filho. Também foi o meu rito de passagem. O que me foi permitido nesta vida, sejam quais forem os motivos. Como escrevi no meu diário, foram os momentos mais difíceis e os mais doces e mágicos. Estão registrados em pinturas rupestres nas paredes da caverna da minha alma.
Hoje estava contando a uma grande amiga como foi o nascimento de Gustavo. Ela, surpresa com a espera de mais de trinta horas, mais precisamente, com a persistência de Mary, de Ulla e de Julia em me acompanharem por tanto tempo, expressou sem querer o sentimento que nos leva a fazer o que fazemos. Ela disse: “Vocês tem muito amor pelo que fazem”. É verdade, o cerne de quem decide estar presente neste momento selvagem que é o nascimento natural de uma criança e de sua mãe é o AMOR.
A minha gratidão e o meu amor (de parteira aprendiz) a Mary, Marilanda, Adriana Medeiros, Julia e Ulla. Gratidão a Gugu, que se envolveu nesta odisséia. Obrigada à vida, por ter me dado esta oportunidade de rever tantos aspectos do meu ser e da minha forma de viver. Descobri tesouros que não seriam encontrados de outra forma.
Quanto a mim, dez dias após o nascimento de Gustavo, percebo umas sombras da antiga frustração me rondando. Mas, naqueles dias em que estive acompanhada por Mary, Marilanda e Adriana, resolvi optar pela LEVEZA e pela ALEGRIA. Fiz o que esteve ao meu alcance, enfrentei a dor e o medo, para dar à luz o meu bebê. Decidi conscientemente pela cesariana. Este foi mais um medo enfrentado. Foi mesmo uma odisséia, para ter o meu filho nos braços. Estou feliz, apaixonada pelo meu filho e pela vida, mais forte do que antes. Tudo valeu à pena.


quinta-feira, 22 de setembro de 2011





Estamos entrando na 41ª semana de gestação. Um momento muito especial, de despedida da barriga (esta deve ser a minha última gestação), de expectativa pela chegada de mais um filho, de ansiedade para finalmente segurá-lo (ou, segurá-la) nos braços.

Sim, não quis saber o sexo do bebê. Pessoalmente acho estranha a necessidade que se tem atualmente de saber se é um menino ou uma menina que está para chegar. Geralmente, independente de nossa vontade, o desenvolvimento do embrião ocorrerá. Com todo o seu esplendor e potencialidades. O nome? A decoração do quarto? A cor do enxoval? Como fazer? Rosa ou azul? Sinceramente, nada contra, até bem a favor, de quem curte a beleza desses detalhes. Também fico maravilhada diante de um quartinho de bebê super-bem-decorado... Mas, prefiro dar prioridade a outras questões. Seja menina ou menino, o bebê que está para chegar é uma pessoa diferente de suas irmãs, não vai dar a mínima para a decoração do meu quarto (porque vai passar um tempo compartilhando o quarto comigo e com o papai), e o seu nome já está definido (foi surgindo, secretamente e só anuncio depois que a pessoinha chegar). Precisará de uma mãe inteira, disposta a aconchegá-lo(la) e amamentá-lo... Os paninhos, roupinhas e acessórios couberam todos em duas gavetas do meu guarda-roupa, gentilmente cedidas. Aliás a irmã mais nova também cedeu uma gavetinha da sua cômoda para as fraldinhas de pano. Porém, preciso confessar um pequeno desvio de conduta: confeccionei lembrancinhas de maternidade. No meu caso, creio, com o parto domiciliar, serão "lembrancinhas de nascimento". Não resisti a essa "peruísse" de mãe moderna.

Mudando de assunto, faz umas três semanas que precisei me afastar do mundo. Cansaço, dores musculares e uma necessidade enorme de dar um tempo na correria do cotidiano. Sou mãe, estudante (de Enfermagem, voltei para a faculdade aos 36 anos), professora de adolescentes (lindos!) e doula/assistente perinatal (com Mary). Mas como é difícil fazer isso, afastar-se do mundo... As atividades, os acontecimentos, as obrigações, as demandas sociais e afetivas continuam chamando a atenção. Desse modo, apesar da tentativa de relaxar, continuei cansada e estressada. Às vezes, uma megera insana... Fui salva por minhas amigas/parteiras queridas, Mary, Marilanda e Adriana. Passei dias maravilhosos na Ilha de Itaparica, com direito a tratamento de rainha, mar, sol, incensos, massagens, abraços, carinhos, conversas cabeça e conversas besteirol total. O mais importante? Sentir-me acolhida, protegida, cuidada... Serei eternamente grata a estas amigas por esses dias tão especiais.

Chegamos ao final desta postagem. E agora? Agora estamos no final, eu sentindo contrações que variam em intervalos d 10-15 minutos. Incômodas e começando a sentir dor. Pouquinha dor, no pé da barriga e nos quadris. Sinto que preciso me movimentar, caminhar. E dar um tempo da pressão do "tempo que está acabando"... Tenho reforçado para mim mesma que é possível e natural esperar pela hora real do nascimento. Pelo nosso tempo. Talvez essa "demora" seja devida à necessidade de resgatar o tempo que faltou para que o nascimento de Letícia (minha segunda filha) acontecesse espontaneamente. O momento também é de aprendizado.

Ontem fizemos uma despedida da barriga, aproveitando a visita de Mary (que me ajudará na recepção do bebê) e de Ula, uma amiga muito querida, antropóloga, defensora da nossa causa, o parto natural, e, claro, super-inteligente e gente boa. A barriga foi transformada numa tela, dividida ao meio, e as meninas expressaram as suas bênçãos e criatividade para o bebê.

Fico por aqui. Espero que, quando escrever novamente, seja para contar sobre o encontro entre eu e meu bebê querido. Pensamentos positivos!



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Convite!

Salvador, 13 de setembro de 2011.

Fui chamada por Mary para uma conversa há algum tempo, mas não estávamos em sintonia e não nos encontrávamos. Num certo momento pensei e automaticamente liguei. Consegui.
Nos encontramos no dia e horário combinado e fui surpreendida por um convite muito especial. Trabalhar como Ajudante Peri-natal por um tempo enquanto Liliana curte seu momento mãe. Realmente a sintonia tão forte que Liliana ligou e pude então pedir permissão, mesmo por telefone, para tentar substituí-la.
Tínhamos nos visto apenas uma vez num momento de aprendizado em uma oficina para gestantes, mas mesmo assim percebi que ela não estava bem, perguntei se queria minha ajuda, e ela recusou, fiquei sem graça, mas me colocando em seu lugar, como eu reagiria a invasão de uma estranha em meu território?
Mary a propôs sair para caminhar na praia, gostei da idéia e me ofereci para acompanhá-la, só que dessa vez sem pedir permissão.
Fui em casa, me organizei, afinal também sou mãe, e munida de biquíni e boa vontade saí para encontrar Liliana de surpresa. Chegando ao endereço liguei para saber qual era a casa e descobri que ela havia saído. Resolvi procurá-la aos redores e a vi, estava com uns óculos escuros enormes e um barrigão lindo! 
Nos abraçamos e saímos caminhando. Mostrei que estava de biquíni, e Liliana resolveu também vestir o seu.
Passamos a tarde toda conversando, trocando experiências e boas energias. A beira da praia, sentadas na areia, sob um céu maravilhoso descarregamos nossas energias para que as ondas levassem para onde não pudesse nos fazer mal.
Com um abraço nos despedimos no final da tarde e quando já estava em casa, embaixo do chuveiro refletindo sobre tudo que aconteceu, entendi a importância da oportunidade que fui presenteada. Senti o que “doular”.
É permitir prestar atenção, é uma troca de energias, é doação mútua. É entender que enfrentando nossos problemas e angústias podemos ajudar o outro a também enfrentar. É ver que se impor diante de situações limite e encará-las é prazeroso.
Dizer ao outro o que sente, desabafando é saudável.
Parir é mais que o ato fisiológico, é renascimento.
Ser mulher é maravilhoso!


Vamos lá Liliana!
Obrigada Mary, amei!

Júlia Gonçalves

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Relato do Artur - pai de Yana - Maio de 2010

Pré parto
Quando Tâmara me contou o plano que tinha para o nascimento da Yana eu não demonstrei muito entusiasmo porque tive medo, os medos diversos do tipo com a segurança, junto a isso uma imagem de sangue e sofrimento, etc. Eu sabia que em um hospital isso seria minimizado.

Pensei que Tâmara mudaria de opinião com o tempo o que não aconteceu, mesmo eu tentando de algumas maneiras. Ai veio o encontro com Mary e também a proximidade com o parto, assisti alguns filmes sobre o assunto e de uma certa forma fui me atentando que era isso mesmo, eu tinha que enfrentar.

· Parto
Tínhamos feito alguns planos de como seria quando chegasse o momento do parto e de uma certa forma foi muito bom, quando Tâmara começou sentir as primeiras dores, logo acionamos Mary e isso acalmou a todos.

Mas quando de fato o parto começou e me vi envolvido naquela tarefa que eu não tinha idéia de como reagir, me senti só, vi que era fraco, pensei em correr, porque tinha aceitado isso etc. Mas a parteira estava ali, isso me deu alguma força.

As horas passavam o nenê não chegava e minha ansiedade interna aumentava. Meus medos passavam por mim, mas acredito que decidi manter a calma e confiar e me entregar de coração, queria ver todos bem e salvar minha mulher. Salvar ela foi uma força que me acordou me fez ser útil, porque na minha cabeça a parteira estava cuidando da criança, e ver Tâmara sofrer me enchia de culpa.

Tâmara passou a ser muito importante na hora do parto e senti que tinha que ajudá-la porque ela precisava ouvir minha voz e entender que eu estava ao lado dela, que a amava e que ia salva-la.

Veio então depois de 12 horas o nascimento da Yana, fiquei emocionado de uma maneira nunca antes experimentada, o tempo tinha parado naquele momento. A imagem não era como eu tinha pensado, a criança chegou linda e limpa não tinha sangue, a mãe tinha um rosto sem dor tudo estava parado.

· Pós Parto
Aquela experiência mexeu muito comigo, se tento me recordar me emociono novamente.
Durante 2 dias chorei constantemente, depois disso descobri o amor e de uma maneira o milagre que é estar vivo, a pulsação do cordão umbilical que cortei de minha filha me mostrou a responsabilidade que eu tinha com aquela criança.

Deus me deu uma vida pra cuidar, eu pensei! A experiência me transformou numa pessoa muito superior que descobre o amor e que a vida é um milagre e que precisamos acreditar no mistério que rege tudo.
Fiz um ritual onde enterrei a placenta e agradeci a Deus a minha esposa e minha filha por ter me dado aquela emoção de saber que eu estou vivo e que sou parte daquele momento. Tenho escrito a todos sobre esta experiência e digo aos amigos que se puderem, nunca deixem de viver isto, em um hospital acho difícil vivenciar este momento.

Claro que as palavras dizem pouco, mas o que sei é o que o sentimento continua agindo dentro de todos na família. Agradeço muito também a Mary Galvão e a Liliana que me conduziram por aquele caminho.

Muito amor.

Parto de Tâmara – Nascimento de Yana

Por Liliana Silvera, Assistente Perinatal e Doula Atua junto a Mary Galvão

Salvador, 17/05/2010, 14:17.

No mês de março num encontro com minha amiga parteira Mary, fui comunicada que uma gestante de 7° mês havia lhe telefonado para marcar uma consulta. Segundo ela, a gestante expressou interesse em parir em casa pois sua 1° filha nasceu em uma maternidade em São Paulo, há 2 anos, e lhe causou alguns problemas decorrentes das rotinas hospitalares. Nesta conversa foi relatado as impressões iniciais que a parteira teve com relação a gestante. Tâmara se mostrou calma, introspectiva e muito segura do seu posicionamento em relação a escolha do local do parto. Residindo no Brasil há 5 anos, ela é casada com um brasileiro, que conheceu em seu país- Inglaterra
Conheci Tâmara uma semana antes do parto, ela estava sendo acompanhada pela parteira (enfermeira obstetra) há cerca de um mês. Ela morava em São Paulo e chegou com a gravidez adiantada a Salvador, acompanhando a parteira numa das suas visitas domiciliares à gestante. Ela se queixava de cólicas. Parecia ser a iminência do trabalho de parto. A parteira acreditava que o trabalho de parto transcorresse rapidamente com pouca dor, pois Tâmara relatou que na sua primeira gravidez, há quase três anos, foi assim que as coisas aconteceram. Pouca dor e quando chegou ao hospital em São Paulo, já estava com 8cm de dilatação.Ficamos por uma hora na casa dela. Fui apresentada ao marido e à filhinha de quase dois anos. A parteira acompanhou os batimentos cardíacos do bebê e as contrações, que eram indolores e pouco intensas. Concluímos que eram os pródomos e que era melhor voltarmos às nossas casas.
Eu, que acabava de chegar naquela história, me coloquei na posição de observadora atenta e discreta. O final da gestação é um momento muito delicado, de expectativas, recolhimento e reflexões. Pessoas estranhas podem atrapalhar. Seja por causa de palpites indevidos, pela presença invasiva num momento tão íntimo, seja pelo desequilíbrio energético que possa vir a provocar no ambiente. Eu ainda me considerava estranha naquele processo.
Após uma semana, numa segunda-feira, 17/05, fui acordada às 03:30 por Mary: tudo indicava que o trabalho de parto começava. Pressentindo que o trabalho de parto iria transcorrer rapidamente, chegamos à casa de Tâmara. às 04:30. Chegando lá fomos recebidas na sala da casa por ela e seu marido Artur, que nos ofereceu chá.
Iniciamos uma conversa bem baixinho para não acordar a filhinha que dormia. Conversa pouca, para dar espaço ao silêncio, enquanto a parteira avaliava a intensidade das contrações de intensidade média a cada 20 minutos
Ficamos as três ali sentadas no sofá até as 8:00 horas acompanhando a evolução da dinâmica uterina. Antes disso, por volta das 07:00, a filhinha de Tâmara acordou e acabei me ocupando com ela. Essa “ocupação” foi providencial. Eu e Tâmara ainda estávamos nos acostumando uma com a outra, melhor dizendo, eu esperava que acontecesse alguma sintonia, já que não houve tempo para formar um vínculo afetivo. Participar do parto de alguém, ainda mais se tratando do ambiente doméstico, é algo que requer muita sutileza e afinidade. Era preciso que eu desse tempo natural para criar sintonia.
Quando as contrações se tornaram mais fortes e freqüentes, Mary e Tâmara foram para o quarto para o primeiro exame de toque vaginal. De lá veio a boa notícia: 7 cm de dilatação! Cogitamos (eu e a parteira) que o parto aconteceria por volta das 10:00. A partir daí as contrações se intensificaram, mantendo o intervalos regular de 20 minutos.. Por volta das 09:30, Tâmara estava com muita dor, foi acompanhada ao banheiro onde estava preparado previamente um banho relaxante com ervas e aromas.Sentindo-se cansada e com sede, pediu a Artur que lhe trouxesse um suco. O mesmo prontamente atendeu seu pedido com uma taça de suco de maracujá, que era para ser fraquinho, mas veio forte e foi tomado rapidamente. O clima na casa era bem tranqüilo, porém a filha pequena começou a ficar inquieta e foi levada para a casa de uma amiga da família. Sem a distração provocada pela inquietação da filha, as 10:30 Tâmara resolvei ir para o quarto que foi cuidadosamente preparado com um grande colchão tipo tatame, almofadas, travesseiros, velas, flores e aromas para acolher o momento do parto. O material a ser utilizado pela parteira bem como as roupinhas da bebê foi organizado numa mesinha próximo ao colchão
Tâmara já inquieta, experimentava várias posições buscando conforto. Quase não falava, porém mantinha-se ainda bastante atenta aos movimentos externos, observando o ambiente e nós à sua volta. Eu me aproximava aos poucos, preocupada em não atrapalhar o clima, mas também tentando relaxar e me inserir de forma tranqüila naquele cenário. O tempo foi passando, ela sentindo vontade de fazer força, ficou de quatro por um bom tempo. Depois, resolveu tentar ficar de cócoras e assim permaneceu entre o período das 11:00 às 12:30, tentando ajudar Yana nascer.
Durante esse período, sugerimos que ela mudasse de posição, que caminhasse um pouco entre as contrações, porque agora o intervalo entre as contrações era curto, cerca de 5 minutos. Mesmo com o grande poder de Tâmara e do nosso encorajamento verbal e físico porque eu e o marido ajudamos a mantê-la na posição de cócoras, ela falava que aquelas contrações não eram suficientes, que ela “parecia que não sabia fazer força direito”, que o plástico que estava embaixo do lençol não protegeria o colchão dos fluidos que saiam dela.
Decidimos gestualmente, deixar o casal a sós. Fomos para a sala. Também estávamos precisando de um tempo para respirar, falar sobre nossas impressões. O que estava acontecendo? O marido tinha me comentado que o primeiro parto foi “encorajado” por cerca de cinco enfermeiras através de puxos dirigidos, porque no 1° parto realizaram manobra de Kristeller. Comentei isso com Mary, que acrescentou que Tâmara relatou ter rsido submetida também ao uso de ocitocina sintética e episiotomia. Observamos que a parturiente mantinha-se mentalmente muito ativa, não se entregando ao processo (neocortex ativo). Deixei que Mary retornasse sozinha para o quarto. O marido parecia também estar tão inibido quanto eu. Por vezes ficamos os dois do lado de fora, esperando. Em algum momento resolvi fazer uma sopa, para a mãe tomar depois do parto. Essa atividade também me distrairia um pouco. Talvez servisse de estímulo, para ela, sentir o cheiro da comida, pois a cozinha ficava bem perto do quarto.
Até as 13:00, nos alternamos todos para dar suporte a Tâmara, que continuava insistindo em fazer força durante as contrações. Porém, o discurso dela, antes era autocrítico, passou a ser pessimista. Ela dizia que não conseguiria, que estava cansada e que pensava em ir ao hospital. Novamente a parteira e eu fomos para sala. Refletir sobre o motivo do prolongamento do período expulsivo. O marido saiu para levar alguma coisa para a filha, na casa da vizinha amiga. E agora? O bebê estava quase coroando. A cabecinha estava visível através da vulva já entreaberta. Os batimentos cardio-fetais continuavam rítmicos, mas ela sugeria ir para o hospital. O marido retornou e resolvemos conversar os quatro. Tâmara falava que estava com sono. Concluímos que o suco de maracujá oferecido à Tâmara surtiu efeito sedativo, e esse era o motivo dela estar tão sonolenta.
A parteira olhou para ela com firmeza, e informou que se ela optasse pelo hospital seria bem provavel a indicação de uma cesariana, haja visto que a decisão seria da equipe médica. Porém a decisão de ir ou não dependia tão somente dela.Mas ela só falava em dormir. Decidi me pronunciar, que ela dormisse se assim quisesse, e foi o que ocorreu. Tâmara dormiu por cerca de vinte minutos, de lado, com um travesseiro entre as pernas.
Após esse curto período, vieram ruídos do quarto. Gemidos cada vez mais altos. Será que algo estava acontecendo? Permanecemos atentas ouvindo os gemidos, foi então que. o marido nos chamou, e lá fomos nós. Estava perto das 14:00. Já tinha chovido e estiado, fazia um ventinho fresco. Nos acomodamos no quarto. A parteira deitada de lado, no colchão, olhando Tâmara. Eu ajoelhada na beira do colchão, perto dela, e o marido inquieto, de pé. Antes disso, Tâmara pedia comida, estava com fome. Tomou um café com leite, que seria mais conveniente, devido ao adiantado trabalho de parto. Tâmara voltou a se queixar de dor e não mais de desconforto. Ficou de quatro. Eu tinha me levantado, ido à cozinha, e quando voltei encontrei ela com aquele olhar selvagem, intolerante. Dizia que “estava vindo”. O marido, aparvalhado, de pé. Eu passei por trás dela e vi. O bebê tinha coroado! Tâmara gritou: “ venha Mary, tá nascendo!”.
Foram umas cinco contrações. Mudamos Tâmara de posição, para proteger o períneo e a vulva, pois o bebê vinha com muita força. Sentei junto dela, que se recostou nas almofadas. Segurei a sua coxa contra o meu peito, apoiei o seu pé na minha coxa. A parteira no meio, protegendo o períneo de Tâmara, que gritava: “ não vou agüentar, ta me rasgando”! O marido em pé, ao lado, continuava aparvalhado, a expressão do seu rosto era muito forte. Com três contrações Yana nasceu. Rosada, esperta, olhando tudo. Quase não chorou. Foi para o colo da mãe. O pai se aproximou chorando. Quando o cordão parou de pulsar, Mary convidou o pai a fazer o “ritual de separação” mãe-bebê, oferecendo-lhe a tesoura para proceder o corte. Nesse momento Mary entoava em ritmo de oração: “ é o pai quem corta os laços, esse é o seu papel” . Em seguida, ela se ajoelhou diante de Yogananda (seu mestre espiritual). Senti naquele momento a fé que me envolveu o tempo inteiro, mesmo nos momentos de desânimo.
Após o nascimento, Yana mamou por uma hora com pega perfeita, de livro didático. Depois de uma hora, ajudamos Tâmara a eliminar a placenta , que veio íntegra, amparando-a de cócoras. Pesamos e medimos Yana: 3,400kg; 51cm. Mais uma surpresa: a altura uterina sugeria um bebê bem menor. Se bem que a mãe dizia que ela não parecia se acomodar direito na barriga.. Olha aí o motivo. Acompanhei o curativo do umbigo, feito pela parteira, que conferiu o cordão umbilical. Ajudei o pai a dar o primeiro banho de Yana, no balde. Depois ele foi ajudar a parteira a cuidar de Tâmara. Eu fiquei cuidando daquela pessoinha tão esperta. Ela chupa dedo! Toda perfeitinha, linda!
Organizamos todo o quarto, a cama já estava arrumada e cheirosa quando Tâmara voltou do banho para tomar a sopa, com suco de uva e pão. Yana voltou a mamar quando a mãe terminou de comer. Já era quase noite e logo chegaram os pais de Tâmara, com a amiga e a outra filhinha dela. Uma festa! Eu e a parteira fomos saindo discretamente. O momento pertencia à família. Estava tudo muito bem.
Mais uma vez percebi que as pessoas e os seus processos, em especial os fisiológicos, têm o seu tempo. Não seguem padrões. Lembrando, o trabalho de parto transcorreu quase todo com contrações em intervalos de 20 minutos, aproximadamente. Não seguiu os padrões dos manuais de obstetrícia. A mãe estava muito mental, muito ligada? Talvez. Mas e se ela for assim? E se esse for o modo natural dela? Seria saudável tentar mudar esse jeito de ser? Seria possível mudar isso? Seria conveniente para quem? Estou concluindo, mais uma vez, que não dá para separar eventos biológicos, fisiológicos, da emoção, da história de vida da pessoa. Parece algo tão simples, tão natural. Mas a gente continua fragmentando e compartimentando tudo. Como é difícil deixar acontecer! Mesmo que mantenhamos uma vigia cuidadosa, como no caso de um trabalho de parto. Porém, é preciso dar tempo ao tempo. Dar tempo para mim. E dar tempo para mim é deixar que a minha ansiedade se vá. É ir para a cozinha fazer uma comidinha. É brincar com uma criança enquanto deixo alguém se acomodar com a minha presença. Às vezes sair discretamente quando a minha presença estiver inibindo, atrapalhando. Dar tempo para os outros. Para me permitir ser e permitir que as pessoas também sejam.
Na 1a visita pós-parto, 3° dia, após realizado a avaliação de Tâmara e Iana, observando o vínculo entre as duas, involução uterina e processo de amamentação, identificamos uma vibração familiar muito amorosa, com integração dos quatro de forma harmoniosa.
Artur não se cansava de expressar os sentimentos vivenciados durante todo o parto, referindo que ainda se mantinha sobre o efeito daquelas emoções, conforme seu próprio relato de experiência.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Relato da Lara - Algumas histórias e explicações

Por Lara Souto Santana

Olá,
Estou aqui ainda na maior adrenalina com este blog! É um prazer muito grande poder fazer parte desse projeto que é, ao mesmo tempo, despretensioso e grandioso, porque aqui falamos, sobretudo, de vidas que começam do jeito mais natural possível.

Pois bem! Amanhã é meu aniversário e acho muito interessante o fato de tudo isso ter começado nesta semana, motivo pelo qual achei importante fazer um balanço e reviver coisas boas para compartilhar com quem vier aqui.

Como comentei no primeiro post do blog, a Mary é minha madrinha e moramos em cidades diferentes. Isso aconteceu desde antes de eu nascer, mas ela é muito responsável pelo meu nascimento e pelo meu nome, que todos gostam tanto.

Vou contar uma coisa de cada vez: Minha mãe não sabia se eu seria menina ou menino. Se eu fosse menino ela queria Pedro, mas se fosse menina que nome colocar? Lia, Bruna? Precisaria ser um nome pequeno. Então, a Mary falou para minha mãe: "Por que você não coloca Lara?" Ela gostou, mas ainda faltava tempo pra nascer, né?

Daí eu surpreendi e me apressei. Minha mãe, que nunca tinha tido contrações, (o parto da minha irmã foi cesárea) ligou pra Mary e ela disse "isso é dor de parto!". No dia 02 de setembro eu resolvi dar o ar da graça (parto normal)! Como era muito prematura, tinha risco de morrer, então meu pai disse: "fala um nome só pra batizar aqui no hospital e a nenê não morrer pagã, depois você pode mudar o nome" e minha mãe: "Ela vai ser Lara, não vai morrer e eu não vou mudar" e foi isso que aconteceu! Vaso ruim não quebra!

Olha eu aí! Tão "linda"



No comecinho da minha infância, a Mary não morava em São Paulo. Só me lembro dela a partir de uns três/quatro anos de idade. Ela queria muito que eu a chamasse de "dinda/dindinha", mas eu não conseguia. Só dizia "Mary" (e até hoje é assim). A Mary diz que quando eu era pequena eu dizia "você não é minha madrinha, minha madrinha é a tia Dida!" Eu não me lembro disso, mas hoje eu encho a boca pra dizer "A MINHA MADRINHA é parteira, faz isso, faz aquilo...".

Então, quando eu era criança, ela vivia querendo me conquistar, comprar presentes que eu ia gostar: fita da Xuxa, patins, passeios ao parque do Ibirapuera, todas essas tralhas que crianças adoram. Lembro que ela trabalhava num hospital e às vezes trazia uns quites com shappoozinho e fralda para eu brincar de boneca! Nossa eu amava! Quando eu tinha uns nove anos, ela me deu uma Barbie que ficava grávida e tinha um bebê. Era um modo de eu me aproximar da profissão dela.

Depois de uns dois anos lembro de ela ter me contado que era voluntária na favela Monte Azul com a Angela, uma amiga alemã dela, e lembro até que estive na inauguração de uma casa de parto que até hoje existe lá. Hoje, porém, o nome é casa Angela.

Depois disso, ela voltou a morar na Bahia, mas eu sempre acompanhei um pouco do trabalho dela. Sempre achei muito bacana, sempre tive muito orgulho. Há uns cinco anos a dissertação dela veio parar na minha mão e vi que eu fui uma das pessoas para quem ela dedicou a dissertação! Foi tão interessante. Na época (anos 1990), eu era tão pequena e nem sabia o que era vida acadêmica. (Atualmente faço mestrado na área de Letras).

Sempre procuro saber dos partos que ela faz e aí ela me mandou o relato do nascimento da Déa. Achei tão bonito e, ao mesmo tempo, um desperdício que isso ficasse parado no computador dela. Foi aí que sugeri que ela abrisse um blog para compartilhar com todos essas experiências tão ricas.

Acho que o blog é uma maneira de nós nos aproximarmos um pouco mais! Uma causa muito nobre não acham? Então, estou aqui me despedindo de vocês e dos meus 25 anos (quanto!!!) com muita alegria de fazer o blog acontecer.

Um grande beijo a todos.

Lara

Relato do pai de Lis




Me chamo Leonardo Oliveira, brasileiro natural de Salvador e pai de Lis, uma menina muito especial e abençoada que nasceu no dia 12 de dezembro de 2010 aqui também em Salvador.
Sua mãe, Lais Barros, uma mulher determinada e muito corajosa sonhou e conseguiu realizar o nascimento de nossa filha em casa. Uma experiência mágica de indescritível grandeza!
Desde o início da gravidez essa idéia a acompanhava, que foi sendo amadurecida a cada dia com as práticas de yôga e assistindo a vídeos de partos domiciliares.
Foi chegando ao final da gravidez e ainda não tínhamos deixado nada certo, além disso, a mãe de Lais combatia o tempo todo contra essa idéia.
Tivemos a informação de uma enfermeira obstetra que realiza parto domiciliar, Mary Galvão, mulher forte e de grande conhecimento de parto natural, pena não termos a conhecido desde o inicio da gestação. Lais então, foi logo ao seu encontro, não tínhamos mais tempo a perder.
Ao chegar do trabalho, a encontrei muito feliz e entusiasmada. Ela me contou sobre a conversa que tiveram e que haviam marcado um segundo encontro para conversar comigo e com a mãe de Lais para esclarecer nossas dúvidas, criando assim um laço de confiança entre a gente.
Porém, o grande dia chegou e antes desse segundo encontro com Mary. No sábado, 11 de dezembro, Lais começou a sentir as contrações e a sua mãe ainda defendia a idéia de ter o parto no hospital, pois tinha muito medo que algo desse errado com a sua filha ou com o bebê.
Lais, contudo, não desistiu, ligou para Mary imediatamente e ela avisou que só iria chegar no outro dia pela manhã, pois estava fora de Salvador. Nos manteve, porém, tranqüilos, dando todas as coordenadas pelo telefone durante a madrugada.
Domingo, 12 de dezembro, às oito horas da manhã Mary chegou, trazendo com ela outra mulher, Susana Tapia, uma xamã parteira que veio do Equador para participar de uma conferência internacional de parto humanizado e por uma benção de um sagrado destino veio parar em nossa casa. As duas chegaram emanando luz para todos os lados nos deixando confortáveis e confiantes.
Mary fez o exame de toque e mediu 5 cm, em seguida, marcou o intervalo das contrações que estavam a cada 5 minutos.
Susana me pediu que eu conseguisse uma pequena piscina plástica para colocar Lais e eu fui correndo em um mercado comprar. Montamos embaixo do chuveiro e a enchemos com água quente para que ela pudesse relaxar.
Mary e Susana cuidaram muito bem de Lais durante todo o trabalho de parto, fazendo massagens, a alimentando e dando apoio com palavras de força.
Algumas vezes nos deixavam à sós para que vivenciássemos o nosso momento.
Assistindo ao trabalho das parteiras e depois de uma rápida conversa com Mary, Cláudia, a mãe de Lais, compreendeu a importância desse parto para a sua filha e se dispôs a ajudar também. Todos nós vibrávamos numa mesma força e harmonia para proporcionar um lindo nascimento a nossa pequena Lis.
O dia foi passando, deu meio dia, uma, duas, três, quatro horas e nada. Lá para as 6 horas da noite as contrações foram ficando mais intensas e vimos que era chegada a hora.
Mary e Susana foram preparara o “ninho” para o parto enquanto esperávamos no banheiro onde Lais relaxava na banheira.
Em seguida, fomos para o quarto e nos acomodamos em edredons forrados no chão. Encostei na parede e Lais se encostou em mim. A luz do quarto estava apagada haviam apenas velas, deixando um clima bastante confortável.
Susana como uma legitima xamã, fez um belo e poderoso ritual para chamar o bebê com ervas e cânticos. Que ritual! Inesquecível.
Passado alguns minutos, a bolsa rompeu, descendo muita água e então Lais ficou de cócoras dando inicio ao período expulsivo.
O nascimento em si foi rápido, ás 19:10 o bebê colocou a pontinha da cabeça para fora e escorregou nas mãos da Xamã, que me deu imediatamente para confortá-la e aquecê-la.
Chorei junto com a minha filha, foi fantástico! Em seguida a passei para a mãe, que a essa altura estava exausta e muito emocionada. Ficamos os três abraçados por um bom tempo até que chegou o momento de cortar o cordão umbilical.
Mary me instruiu como fazer e me passou o material. Antes de cortar, pedi permissão para a minha filha e sua mãe, pois ambas estavam conectadas há nove meses por ele. Foi um momento mais mágico do que o outro, com certeza não sentirei nada igual como nesse dia. Difícil descrever tamanha felicidade.
Nada disso seria possível sem essas mulheres: Mary com o seu conhecimento e total controle durante todo o trabalho, Susana, com o seu poder e sabedoria nos fazendo sentir protegidos a todo o tempo, Lais, minha companheira que com coragem e muito amor deu a luz a nossa filha de uma maneira tão linda e Lis, nossa pequena guerreira que foi quem escolheu ter vindo ao mundo dessa forma.

Abreviaturas

Bom dia!
Fiz para nós, os leigos, uma listinha com as abreviaturas utilizadas nos relatos da Mary. Já estaremos familiarizados quando os próximos vierem!

BCF – Batimentos cardíacos fetal
IG – Idade gestacional
LA – Liquido amniótico
SV – Sinais vitais
TP – Trabalho de parto
USG - ultrassonografia

Lara